Ouso dizer que a maior parte dos filmes com temática queer que se passam antes dos anos 2000 exploram duas vertentes comuns da vivência dessas pessoas: como lidar com a epidemia de Aids ou como viver escondidos e/ou assumir a própria sexualidade ou gênero para si e para o mundo. É claro que existem diversas exceções, mas não é o caso de À Paisana, que tem como tema esse autoconhecimento mencionado, ainda que com uma abordagem estética e narrativa bem únicas dentro do gênero.

Passado no fim da década de 1990, o filme mostra, logo de início, ao som da música How Bizarre, do OMC (one hit wonder da época), imagens de um shopping filmadas em qualidade de VHS — portanto, se havia alguma dúvida sobre o tempo/espaço da história, não existe mais. No local está o protagonista, Lucas (Tom Blyth), um policial cuja missão é prender possíveis predadores sexuais por exposição indecente ou atentado ao pudor.  No entanto, os alvos são apenas homens gays não assumidos, que utilizam o banheiro masculino do shopping em suas escapadas e que irão apenas pagar fiança, sem muito alarde, para não serem descobertos. Eis que Lucas — ele mesmo questionando a própria sexualidade — passa a não se sentir confortável com a operação e, nessa confusão de sentimentos, não consegue prender um homem mais velho por quem ele sente atração, Andrew (Russell Tovey).

A partir daí a narrativa vai e volta entre passado e presente: sendo os encontros escondidos parte do passado e o presente uma festa de ano novo com a família, na casa da mãe de Lucas. Dessa forma, sempre que o policial lembra dos eventos anteriores, os segmentos têm a estética de filme caseiro, granulado e com câmera na mão. É interessante pensar como a tecnologia influencia na maneira como as lembranças são processadas: será que as memórias que fazemos hoje vão ser gravadas na nossa cabeça num formato vertical? Afinal, as fotos e vídeos já são. No filme a escolha, além de ajudar a situar a narrativa, também adiciona uma certa melancolia às memórias de Lucas, ao mesmo tempo que elas o ajudam a compreender as próprias emoções.

Dessa forma a estética, somada ao tema da perseguição policial a grupos marginalizados visando lucro e números, contribui para que o longa se diferencie de outros dramas sobre ser gay em um ambiente em que prevalece a masculinidade tóxica. Lucas ainda é um personagem comum nesse tipo de história, sendo um homem cis entendendo a própria sexualidade, porém também deve lidar com um luto na família e com a ética policial: a injustiça de um sistema que prejudica, sem motivo, justamente pessoas como ele. Este talvez seja um tema particularmente pertinente de ser abordado na ficção atual visto que é impossível não pensar no que as forças coercitivas estadunidenses estão fazendo por lá (que é muito pior do que um “lucro fácil” como no filme, aliás).

À Paisana ainda consegue explorar bem o tormento de uma nova paixão, ainda que proibida e talvez não correspondida da mesma forma – o que naturalmente a deixa ainda mais desesperada. O destaque vai para a atuação de Tom Blyth, que consegue expressar muito bem esse sentimento com poucas palavras e escalando a medida em que complicações e consequências vão aparecendo na jornada do personagem. Com isso, a gente fica esperando o momento em que ele não vai mais aguentar a pressão interna dos sentimentos e vai deixar-se explodir.

Por mais que tenha uma trama, de certa forma, manjada dentro do gênero, o filme consegue se diferenciar por construir uma narrativa não linear bastante coesa e esteticamente criativa. Além de provocar a polícia denunciando práticas corruptas de um passado não tão distante e que ressoam ainda hoje — afinal, a polícia dos EUA ainda promove operações com agentes disfarçados criando armadilhas para prender pessoas que cometem “crimes falsos”.