A premiação da Academia que hoje tem o nome de Melhor Filme Internacional foi entregue pela primeira vez em 1947. Entretanto, a primeira vez que um filme dirigido por uma mulher venceu este Oscar aconteceu em 1996, quase 50 anos depois, quando o representante dos Países Baixos levou o prêmio. Ainda assim, o mais impressionante desse marco talvez esteja nos temas presentes no longa abertamente feminista de Marleen Gorris, que não se esquiva de falar sobre liberdade feminina, sexualidade, aborto, saúde mental, conceito de família, amadurecimento, entre diversos outros caros ao movimento feminista. A Excêntrica Família de Antonia é, principalmente, um filme feito por mulheres e para mulheres.

A narrativa é contada em flashback a partir do dia em que Antonia (Willeke van Ammelrooy) acorda já sabendo que será o seu último. Muitos anos antes, com o final da Segunda Guerra Mundial, Antonia e a filha, Danielle (Els Dottermans), voltam para sua cidadezinha de origem, pouco antes da morte de sua mãe, e lá se estabelecem na fazenda da família. As duas inicialmente não são bem vistas na cidade, sendo Antonia agora uma viúva e mãe solteira, que não frequenta a igreja e que sempre viveu da maneira como quis, além de criar a filha com toda liberdade. Mas, ainda assim, as duas resgatam e acolhem também outros párias da cidade, como: um velho amigo intelectual depressivo, um jovem desajeitado que tem dificuldade na fala, uma jovem com problemas cognitivos que é abusada pela família, um fazendeiro viúvo pai de cinco filhos, uma jovem viciada em estar grávida e já mãe de dois, construindo com essas e outras figuras essa dita excêntrica família.

Porém, como sugere o título em inglês do filme, Antonia’s Line (a linhagem de Antonia), a narrativa prioriza as descendentes consanguíneas da matriarca. A diferença aqui é que os homens, quando presentes, são sempre coadjuvantes da história, seja como antagonista ou como parte querida pelas quatro gerações da família. Assim, acompanhamos cada uma das mulheres, com suas peculiaridades e desafios próprios, liberdade de escolha sobre seus futuros e acolhimento incondicional da família. É uma representação do feminino tão escassa no audiovisual que chega a causar estranhamento, sendo até comparada a um conto de fadas na época.

O filme, por outro lado, mostra que, por mais que Antonia tenha criado uma verdadeira comunidade autossuficiente na fazenda, esta não é um mundo de fantasia e ela não está isolada da sociedade patriarcal que a cerca. No entanto, a direção mesmo quando está tratando de abuso, estupro e violência, os retrata com muita sensibilidade, sem mostrar mais do que é necessário, mas também sem fugir do impacto emocional e das consequências e repercussões disso.

Todo tema “polêmico” é tratado com muita naturalidade, seja no texto ou no visual: um exemplo é quando Danielle decide que quer ser mãe, mas que não quer viver com um homem, e a resposta de Antonia é levar a filha para a cidade, onde ela possa fazer sexo com o genitor e depois voltar para a fazenda – quase uma amazona. A direção se mantém quase sempre uma espectadora passiva e levemente distante, com os planos mais abertos, englobando todos em cena. Em momentos muito pontuais a câmera busca intimidade, o que eleva a emoção dessas situações e estabelece uma conexão profunda com cada indivíduo, mesmo em um elenco tão populoso.

São personagens complexas, com desejos específicos e personalidade muito bem definida, recorrendo pouquíssimo a estereótipos – e estes em sua maioria relegados aos coadjuvantes. Por isso a narrativa, embora simples em premissa e estrutura, é muito rica e detalhada na construção de características e nuances das personagens: todos tem uma história precedente, uma motivação clara, um trejeito (por vezes cômico, mas sem pender para a caricatura).

A Excêntrica Família de Antonia é um filme singelo, bucólico e extremamente feminino que nada tem a ver com o que é tipicamente associado ao gosto da Academia. Quase não foi o enviado dos Países Baixos naquele ano — preferiam o longa Minha Amada Irmã (Westdijk, 1995), mas este não preenchia os requisitos de envio —, e por sorte conseguiu distribuição nos EUA depois de ser exibido em Cannes, mas sem o endosso de grandes estúdios. Para somar ao fortúnio do filme holandês, naquele ano havia um filme italiano muito aclamado e promovido pelo Harvey Weinstein, O Carteiro e o Poeta (Radford, 1994), que não estava entre os indicados na categoria de Filme Internacional, apenas na principal. Ainda que indicado da Itália fosse dirigido por Giuseppe Tornatore, que já havia vencido por Cinema Paradiso, a existência de outro filme do país considerado melhor também diminuiu as chances de O Homem das Estrelas (1995).

Portanto, na 68ª cerimônia de entrega do Oscar, um pequeno milagre ocorreu e a Academia premiou pela primeira vez um filme dirigido por uma mulher lésbica e feminista. Levaria mais 14 anos até que uma diretora vencesse o prêmio de direção e melhor filme na categoria principal, em 2010, mas ainda assim com um filme sobre soldados e guerra, quando Kathryn Bigelow venceu por Guerra ao Terror (2008). Na última década diretoras com obras sobre histórias femininas ou queer têm aparecido mais nas listas, inclusive com vitórias como de Nomadland (Zhao, 2020) e No Ritmo do Coração (Heder, 2021), mas o feito de Marleen Gorris ainda seria impressionante hoje.