Na maioria dos embates entre artistas e estúdios, tenho a tendência óbvia a valorizar a visão autoral dos primeiros para com suas obras. Talvez a maior exceção seja o caso de Kill Bill. Vista por Quentin Tarantino como um filme só e sendo dividida por exigências comerciais, essa narrativa sempre foi, ao meu ver, claramente separada em duas facetas, cirurgicamente representadas pelos dois volumes lançados nos anos 2000. Cada um se sustentava como um filme diferente, com distintas abordagens, ainda que contassem a mesma história.

Porém, não é por pensar dessa forma que sou contra o que a versão The Whole Bloody Affair propõe a partir da visão original de seu realizador. Lançada lá em 2004 no Festival de Cannes e, depois, na sala de cinema do próprio Tarantino em 2011, a edição unificada e estendida – se é que posso chamar assim – agora é lançada comercialmente pela Lionsgate e não se distingue tanto a não ser pelo seu maior senso de unidade. Ou talvez, falta dela! Pareceu pejorativo? Mas não é o caso de Kill Bill, já que o filme tem plena consciência de seu caos referencial e estrutural na primeira metade (Volume 1) e de sua mudança de tom e ritmo na dramática segunda metade (Volume 2).

Então já fica o aviso: essa será uma crítica de Kill Bill em geral, sem focar nas diferenças entre as versões. Se tudo está igual, apenas com o diferencial da unificação, não faria sentido dividir alguma coisa aqui. E atenção:

O TEXTO A SEGUIR CONTÉM SPOILERS!!!

Ao abrir seu filme com a consequência final do ataque das Víboras Mortais, Tarantino apresenta a revelação de que a vítima está esperando um filho de seu algoz. A abertura com a música de Sonny Bono, Bang Bang (My Baby Shot Me Down), sugere a traição cometida pelo homem cuja morte já é jurada pelo título, mas também guarda uma ressignificação perto do fim das quase 4 horas e meia de projeção. Uma ressignificação que, ao contrário de tirar a vida comum tão sonhada por sua protagonista sem identidade, a presenteia com uma nova chance. Quando me toquei disso nessa nova revisita ao grande épico de Tarantino, cheguei a uma conclusão curiosa: essa é a obra mais humana do cineasta. E sim, é difícil ter essa noção na primeira metade antes do intervalo, no início da vingança pitoresca e maximalista da Noiva (Uma Thurman).

VOLUME 1: “UM OBJETO DE MATAR”

É interessante como Tarantino abre essa história pelo segundo alvo da lista da morte, a assassina Vernita Green (Vivica A. Fox), que vive o que a Noiva tanto almejava na hora em que foi alvejada. Uma vida comum como mãe e esposa no típico subúrbio americano. Há uma brutalidade cômica em todo esse momento, mas seu desfecho é uma tragédia, tanto para Vernita quanto para a protagonista que, ao perceber a presença da garotinha Nikkia (Ambrosia Kelley) na cena da morte de sua mãe, valida sua potencial sede de vingança no futuro. A Noiva desse momento em diante demonstra até onde está disposta a ir ao sacrificar a própria humanidade em prol da busca por vingança.

A partir dessa noção, o longa nos conduz a uma caçada pela mafiosa O-Ren Ishii (Lucy Liu) e, por meio de um breve flashback em anime, compartilha com o público a história por trás do poder organizado da chefona, muito parecida com a que, agora, é protagonizada pela Noiva. Porém, mesmo reconhecendo a trágica infância de O-Ren, Tarantino não hesita em espetacularizar a cruzada de Beatrix Kiddo que, como a definição do katana kaji Hattori Hanzo para sua última criação, é um “objeto de matar pessoas”. O sangrento e já antológico confronto na Casa das Folhas Azuis é o maior reflexo disso. Poucas vezes uma personagem teve tanto prazer em matar pela sua própria sede de vingança, mesmo não se dando conta de que estava mantendo o controle que Bill (David Carradine), seu algoz, exercia sobre ela.

Tarantino, então, usa de sua criatividade quase adolescente para mesclar referências de filmes que gosta, indo do cinema exploitation hiper violento aos filmes asiáticos de artes marciais, passando pelos chanbaras japoneses e pelos westerns spaghetti da Itália, todos subgêneros ou tendências que, em menor ou maior grau, tornam os atos de seus personagens em eventos apoteóticos e climáticos a partir de cores fortes, closes dramáticos, iconografia imponente, trilhas sonoras eufóricas e incessantes ou estilização da violência. Tudo que compõe, também, os cinco primeiros capítulos da epopeia de vingança da Mamba Negra.

VOLUME 2: “…E TUDO ESTÁ CERTO NA SELVA”

Dito isso, eu sempre achei o segundo volume mais fascinante. E acredito que na versão The Whole Bloody Affair, dá para entender melhor o porquê. Na primeira parte, não entendemos a dimensão do ataque das Víboras Mortais, já que tudo soa confuso, fragmentado, como a mente de quem acabou de sair de um coma de anos. Ao passo que o quebra-cabeças se completa com a introdução dessa segunda metade, tudo fica mais claro. Esse é um épico sobre a luta de uma mulher pela emancipação de um relacionamento abusivo. A intimidação “boa praça” de Bill na capelinha de Two Pines é conduzida pelo cineasta como uma calma antes da tempestade e, como já sabemos o banho de sangue que aquele ensaio de casamento se tornará, apenas esperamos pelo momento em que toda a oportunidade de Kiddo (ou Arlene Plympton, como seria seu nome de casada) em viver uma vida melhor longe da violência vai por água abaixo.

Tendo nos apresentado o sentimento de posse de Bill e o desejo da Noiva de se afastar daquele mundo de assassinos, Tarantino estrutura sua subversão temática e formal. Não é mais um filme de artes marciais, em que os atos violentos são vistos de forma eufórica e até mesmo honrosa. Esse é um faroeste revisionista, no qual Kiddo volta para o Ocidente, para o lugar onde tudo começou, à caça das duas últimas Víboras, Budd (Michael Madsen) e Elle (Daryl Hannah). Ela retorna à violência com um sentimento de que já deveria tê-la deixado para trás. A Noiva aqui age como um pistoleiro sem nome vagando pelo deserto, solitária, remoendo memórias de uma vida que nunca se concretizou. As imagens mais inóspitas do deserto americano tornam-se cenário de uma peregrinação mais intimista e desgastada e sua elegância amarela em homenagem ao icônico Bruce Lee agora já se transforma em um resquício de humanidade coberto de sangue, terra e fuligem após ser enterrada no túmulo solitário de uma tal Paula Schultz. Em meio a um cenário de foras-da-lei sem qualquer lealdade, ela vê sua chance de matar Budd ceifada por Elle e “presenteia” a rival com um destino muito pior do que a morte.

Eis que sua busca por Bill chega ao fim, o confronto tão esperado por 4 horas de duração em uma grande e idílica pousada mexicana. Ao atravessar a porta para o pátio…

O FIM: “BANG BANG!” (MY BABY SHOT ME DOWN)

Talvez a mudança realmente significativa de The Whole Bloody Affair seja o fato de que, assim como a protagonista, nunca ficamos sabendo que sua filha, supostamente morta durante seu coma, está viva e com Bill. Antes, tínhamos essa informação como um cliffhanger do fim do Volume 1, uma espécie de chamada comercial para não deixar a bola cair quando o Volume 2 fosse lançado. E é aqui que a morte de Arlene Plympton no começo ao som da música de Sonny Bono e interpretada por Nancy Sinatra é ressignificada para uma ressurreição, uma nova chance.

E não deixa de ser curioso como, diferente do grande clímax com os Crazy 88 de O-Ren, o confronto com Bill que intitula o épico de Tarantino seja tão… “anti-épico”. A presença de BB (Perla Haney-Jardine) e as tentativas de persuasão do antagonista criam um anticlímax de diálogos e monólogos, destaque na assinatura cinematográfica do diretor. Porém, além de ser mais um passo para se afastar da violência agora que sabe de sua filha, Tarantino explicita como o discurso persuasivo de Bill é ainda mais violento do que sua tentativa de assassinato na capela de Two Pines. Uma espécie de aliciamento perverso porém carismático, que já estava infectando a mente de BB como exemplifica a história de seu peixinho. O gosto assassino da pequena já começava a aflorar e a missão de Kiddo não era mais sua vingança, e sim de uma mãe leoa protegendo seu filhote.

Ao não se deixar ser convencida por Bill, Beatrix o mata com um sorriso de alívio no rosto, que esconde no fundo uma certa admiração pelo mestre que foi obrigada a amar e que a aprisionou em um ciclo de violência. E o final desse épico ser ela e sua filhinha, enfim livres de seus algozes, assistindo a um desenho animado é prova cabal de como Kill Bill é um ponto de sensibilidade fora da curva de seu contraditório realizador.