O Oscar de Melhor Filme de 1942 é um dos mais contestados dentro da cinefilia, por Como Era Verde o Meu Vale ter levado o prêmio em cima do filme que muitos consideram o melhor de todos os tempos: Cidadão Kane (1941). Naquele mesmo ano, o já veterano diretor John Ford também foi premiado com a terceira estatueta de melhor diretor, empatando na ocasião com Frank Capra em número de vitórias e, na cerimônia, superando nomes como William Wyler, Howard Hawks e o próprio Orson Welles. Ford não ligava para a Academia e nunca apareceu para receber os troféus, mas é até hoje o diretor mais premiado, com quatro Oscars, sendo Como Era Verde o Meu Vale o único do cineasta a vencer também a categoria principal.
O último filme de John Ford feito antes da entrada dos Estados Unidos na Segunda Guerra Mundial não é tão diferente de Cidadão Kane em temática, visto que ambos criticam o sistema capitalista de exploração e têm uma nostalgia sobre a infância e tempos mais simples. As abordagens, no entanto, são completamente diferentes. No primeiro, as pessoas comuns são o centro da trama; no segundo, o magnata é protagonista. Aquele utiliza uma narrativa clássica, na escrita e na encenação; este é considerado um marco de inovação técnica no cinema. Curiosamente, a obra-prima de Orson Welles foi inspirada justamente por John Ford, tendo o jovem cineasta assistido incessantemente Nos Tempos das Diligências (1939) enquanto produzia seu filme.
Levando em conta o zeitgeist da época, a vitória de Como Era Verde o Meu Vale no Oscar estava dentro do esperado. Um país passando por grandes mudanças sociais e crises econômicas, entrando oficialmente em uma guerra que já era iminente e sem perspectiva de chegar ao fim, é claro que iria se conectar com a história do filme, em que um homem de meia idade relembra a infância antes da mineração destruir o vilarejo onde ele morava, no País de Gales.
A guerra, aliás, impediu que o filme fosse gravado em cores e no Reino Unido, no que seria uma espécie de E o Vento Levou (Fleming, 1939) britânico, como havia sido planejado originalmente. William Wyler desistiu da direção quando a produção não pôde ser feita na Europa e os cenários começaram a ser construídos na Califórnia mesmo. John Ford foi, então, contratado por um dos fundadores da 20th Century Fox, Darryl F. Zanuck, que se envolveu bastante na produção, para o desprazer do diretor – foi ele, por exemplo, que insistiu na narração em off, algo incomum para a época. Por outro lado, o cineasta, filho de irlandeses, usou a memória e a idealização dos campos da Irlanda para imaginar uma localidade que também conversava com suas origens.
A história de Como Era Verde o Meu Vale, baseado em um livro homônimo de Richard Llewellyn publicado em 1939, usa da perspectiva do caçula da família Morgan, Huw, acerca dos acontecimentos que desencadearam sua perda da inocência e a derrocada de sua família, para criticar autoridade e estruturas sociais.
A crise começa quando o dono da empresa de mineração resolve reduzir os gastos pagando menores salários para os empregados, sem melhoria nas condições de trabalho, o que desencadeia uma greve que não leva a nada. Os dois irmãos mais velhos de Huw decidem, então, buscar novas oportunidades na América, enquanto o pai e outro irmão permanecem trabalhando nas minas. Enquanto isso, a irmã se apaixona por um pastor, mas para não enfrentar o escrutínio das beatas ela acaba em um casamento sem amor com o filho do dono das minas e também sai do país. Já Huw consegue uma vaga em uma boa escola, mas sofre bullying dos colegas e violência do professor, o que o faz negar uma vaga na universidade para trabalhar junto do pai.
O filme, portanto, mostra a família Morgan sendo abusada pelo trabalho (capitalismo), pela religião e também pela escola, sem ter para onde correr. Um retrato também da sociedade estadunidense, com o agravante ainda da guerra, ainda com um saudosismo por tempos mais idílicos. O final de Como Era Verde o Meu Vale também reforça esse sentimento com o menino, apesar de todas as tragédias que aceleraram seu amadurecimento, pensando em momentos agradáveis passeando pelo vilarejo ou com a família reunida durante uma farta refeição. Por outro lado, Cidadão Kane também termina com a perda desse último resquício de inocência sendo destruído, mas sem trazer de volta a memória do que era bom, há apenas a fumaça preta representativa do que estava por vir.
Em uma análise contemporânea é inegável, até pela enorme influência, que o filme de Orson Welles está mais próximo da maneira como hoje o cinema é feito e também de um certo niilismo que permeia a sociedade. No entanto, o de John Ford também tem seus méritos e não deve ser percebido somente como “o filme que roubou o prêmio do maior filme de todos os tempos”.
Como Era Verde o Meu Vale cutuca estruturas sociais e toca em temas sensíveis como greve e criação de sindicatos, em um período de perseguição a comunistas, mas além disso ainda demonstra a qualidade autoral de John Ford na direção, apesar das intervenções do estúdio. Cenas como a da reivindicação dos mineradores, que lembra o famoso quadro Operários, de Tarsila do Amaral, e a do véu ao vento no casamento da irmã, depois revelando o verdadeiro amado ao fundo enquanto ela vai embora, são alguns exemplos da visão de Ford para além do convencional da época. Além disso, o diretor, conhecido por ser exigente e meticuloso com os atores, consegue extrair a expressividade até dos figurantes nas cenas com grandes grupos.
Depois da Segunda Guerra Mundial, John Ford entra de vez na fase de sua carreira que é mais conhecida hoje em dia, que são os faroestes filmados nos desertos montanhosos de Utah. Mas, àquela altura, o prolífico cineasta já estava entre os mais premiados e admirados dos Estados Unidos, com Como Era Verde o Meu Vale sendo o ápice dessa aclamação por parte da indústria cinematográfica.