O suspense erótico é, por vezes, considerado um desdobramento do film noir. Entre as intersecções dos dois gêneros, que incluem tramas de mistério, obsessão, ambiguidade moral e crime, talvez a mais emblemática seja o arquétipo da femme fatale. Esta, por sua vez, é representada por personagens fortes e independentes, mas vistas como perigosas, frias e calculistas, que, principalmente, se recusam a ser encaixadas em papéis de gênero pré-estabelecidos. A femme fatale, portanto, é derivada de um medo masculino da não submissão da mulher ao homem. No film noir, assim como, posteriormente, nos suspenses eróticos, ela possui uma aura vilanesca e é responsável pela derrocada, ou até pela morte, de um homem.
Há quem considere a própria Eva, da Bíblia, como um dos primeiros exemplos do arquétipo, mas a popularidade no cinema é devida ao film noir. Um exemplo muito representativo é Phyllis, a personagem de Barbara Stanwyck em Pacto de Sangue (Wilder, 1944), que contrata os serviços do corretor de seguros, Walter, para receber o valor do seguro de vida do marido, que paga em dobro no caso de morte rara. Porém, o esposo de Phyllis ainda não está morto. Ela é apresentada como uma mulher confiante, bela, bem vestida e sedutora; enquanto Walter é um cara comum, inteligente apesar de um pouco ingênuo. Assim, os dois tornam-se amantes e isso causa a tal derrocada clássica da vítima da femme fatale, dessa vez com Walter se rendendo ao charme de Phyllis.
O film noir, entretanto, teve seu auge nas décadas de 1940-50, em uma Hollywood assolada pelo Código Hays, que, dentre muitas outras regras, não permitia insinuação sexual e previa punição de personagens “subversivas”. Então essas mulheres eram sempre castigadas, mesmo que não fossem explicitamente criminosas, simplesmente por suas perversões – que, para esta sociedade conservadora, poderia significar até mesmo algo banal como almejar independência.
Com o passar dos anos, o Código Hays foi extinto e os movimentos sociais, feministas e de libertação sexual fizeram uma revolução cultural a partir do fim dos anos 1960. Com isso, ao cinema foi permitida a abordagem mais explícita de romance e sexualidade, bem como de violência e de problemas sociais. Isso possibilitou que a ascensão do suspense erótico, que mistura as características do film noir com nudez e sexo softcore. Uma mistura de perigo e desejo, ou tesão e tensão.
Dessa forma a femme fatale, além de não submissa aos homens, também se tornaria sexualmente ativa fora de um casamento – este, por sua vez, visto como uma prisão e um meio para um fim: riqueza e ascensão social. Dentro desse arquétipo aparece também o da viúva negra, que, assim como a Phyllis em Pacto de Sangue, planeja friamente o assassinato do esposo para receber um seguro ou herança, porém o faz sucessivamente com homens diferentes. Essas personagens são pragmáticas e calculistas, além de usarem o sexo para destruir lentamente seus cônjuges. Da mesma forma que a aranha devora o macho morto após o acasalamento (no caso dos aracnídeos, porém, o macho morre acidentalmente).

O diretor Paul Verhoeven, em O Quarto Homem (1983), seu último filme holandês antes de ir para Hollywood, não é nada sutil ao utilizar o arquétipo da viúva negra. Os créditos iniciais do longa abrem com uma mosca presa em uma teia enorme, feita em uma imagem de Jesus na cruz, enquanto a aranha passeia por sua obra até eventualmente embrulhar o inseto para comer depois (deve ter sido mais fácil filmar uma aranha se alimentando do que copulando).
O filme é a adaptação de um romance homônimo escrito em 1981 por Gerard Reve, que também é o nome do protagonista. O Gerard da ficção é um escritor bissexual, alcoolista e católico, que pensa constantemente sobre morte e é perturbado por visões fantasiosas e premonitórias de um suposto futuro – Verhoeven, aliás, é muito eficiente em mesclar realidade e imaginação em transições suaves entre uma e outra.
Em uma palestra ministrada em outra cidade, ele percebe que está sendo filmado por uma bela mulher loira, vestida de vermelho: Christine, uma empresária rica e bem sucedida, dona de uma linha de cosméticos chamada Delilah (ou Dalila, de Sansão) e de um salão de cabeleireiro chamado Sphinx – mas o letreiro em neon está com as letras h e x apagadas, formando então a palavra “spin”, que é aranha em holandês (novamente o diretor sendo nada sutil).
Gerard passa a noite na casa de Christine, quando descobre que o hotel onde ficaria hospedado é o mesmo que apareceu em uma de suas visões, e os dois acabam transando. O escritor, então, sonha com a virgem Maria o conduzindo para um local com três carcaças bovinas penduradas, pingando sangue em três vasos, enquanto, em um quarto vaso, a mulher coloca um buquê de flores vermelhas. Porém, o sonho termina com Christine pegando uma tesoura para castrá-lo. Passado o susto, ele vai com ela até o salão, onde corta o cabelo com a mesma tesoura do sonho.
Assim o filme é repleto desses paralelos: a aranha, a tesoura, a cor vermelha ou Dalila cortando os cabelos de Sansão. A virgem Maria também se parece com uma moça que Gerard havia visto no trem, segurando um bebê, com uma casca na outra mão que parecia formar uma auréola de menino Jesus. As conexões e prenúncios de morte aparecem constantemente para o escritor, enquanto nós, como espectadores, esperamos ansiosamente pelo momento em que as consequências irão chegar.
As coincidências na vida de Gerard não param. Além de sonhar com a moça que viu no trem, outra pessoa ressurge quando o escritor descobre uma foto (de sunga) de Herman, amante de Christine: é o mesmo homem por quem ele havia se interessado na estação de trem. Logo, com segundas intenções e acreditando que está nas rédeas da situação, ele convence a moça a chamar o outro rapaz para ficar na casa com eles.

Gerard não é como os homens vítimas de femme fatales, ele também é frio e calculista como elas, com a arrogância e o egoísmo escancarados à medida em que todas as suas escolhas são em benefício próprio, mesmo quando envolvem mentiras. O interesse dele por Christine e Herman não tem nada de romântico, é movido por dinheiro e atração sexual, apenas. O escritor se enquadra também em outro arquétipo que, por vezes, aparece nesse estilo de filme, e que muitas vezes se confunde com a própria femme fatale, que é o do bissexual hedonista. Isto também é, de certa forma, herança do Código Hays, onde pessoas não heterossexuais eram tratadas como personagens maliciosos e interesseiros, quando não puramente maquiavélicos.
Se o sexo fora do casamento já era um perigo para a sociedade, imagina se o ato se estende também para relações não heterossexuais. Tanto é que, mesmo depois da liberdade adquirida com os movimentos dos anos 1960-70 o tabu permaneceu e foi agravado pela descoberta do HIV. Se a emancipação sexual tinha sido possível a partir de uma mudança de paradigma nos papéis de gênero e do desenvolvimento de métodos contraceptivos, com a epidemia de Aids veio, além do estigma sobre homens homossexuais, um temor geral em se ter relações sexuais com múltiplos parceiros. Com o sexo voltando a ser perigoso, o cinema viu um boom de popularidade do suspense erótico – que se estendeu até o final dos anos 1990, quando os tratamentos da doença começaram a ser amplamente difundidos e se tornaram mais eficazes.
O Quarto Homem é lançado ainda na vanguarda da popularidade do gênero, que tem, talvez, como representante principal outro longa de Verhoeven: Instinto Selvagem. De acordo com o próprio diretor, o filme de 1983 é uma prequela espiritual do filme de 1992, pois ambos abordam temas parecidos, com a protagonista Catherine Tramell também sendo escritora, herdeira, bissexual e femme fatale. Curioso que o filme, conhecido por chocar o público por causa de cenas mais explícitas, incluindo nudez frontal, tenha feito isso quase dez anos depois do outro longa do mesmo diretor, na Holanda, onde a nudez foi tratada com naturalidade.
A narrativa de O Quarto Homem, portanto, segue com Gerard descobrindo o passado de Christine e temendo que ele seja a próxima vítima da viúva negra (como Nick teme Catherine em Instinto Selvagem). Ao contrário do filme posterior, Gerard não cede completamente a seus desejos e acredita ter sido salvo pela virgem Maria. É o estereótipo da oposição entre a mulher depravada e a mulher santa.
Aqui vale um adendo de que Verhoeven é crítico ferrenho da igreja como instituição, mas acredita em um Jesus histórico real, tendo escrito um livro polêmico sobre isso em 2008. Assim, o catolicismo parece ser usado em O Quarto Homem como uma maneira de ressaltar, na figura de Gerad, a hipocrisia de seus seguidores, que são tão degenerados quanto quaisquer outros.
Por fim, ao contrário do que acontecia nos filmes estadunidenses durante o período do Código Hays, aqui a viúva negra segue plena, com sua reputação intacta, em busca de sua próxima vítima, enquanto o protagonista aguarda tratamento no hospital. Porém, Verhoeven, apesar de apresentar diversas conexões, mantém ambígua a culpa de Christine pela morte de seu esposo, podendo essa interpretação ainda ser fruto da paranóia de Gerard.

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