O Fazer Cinema: Sete Filmes Sobre a Produção Cinematográfica

Por muito tempo, em especial no período clássico hollywoodiano, a criação de um filme era como um truque de mágica ou, até mesmo, um processo sacralizado e aurático. O acesso às informações era escasso e o que importava era a total manutenção de ilusão da realidade diegética. Até por isso que os artistas eram vistos como entidades acima do bem e do mal.

Com a construção progressiva das vanguardas e do que viríamos a chamar de “cinema moderno”, essa ilusão foi sendo quebrada e a criação tornava-se cada vez mais exposta e, a partir disso, desmistificada no imaginário popular. O público, então, tinha sua passividade quebrada para transformar-se em espectadores do processo criativo, testemunhas de suas burocracias, contradições e intimidades. Uma espécie de processo evolutivo do voyeurismo já proposto pelo audiovisual.

Surgia então o metacinema, um termo “guarda-chuva” para todas as obras que reconhecem sua natureza fílmica e comentam sobre sua produção. A seguir, separamos longas que tratam exclusivamente da etapa de produção de outras obras, sejam elas reais ou fictícias.

01

A Noite Americana

François Truffaut
1973

Um diretor de cinema, interpretado pelo próprio Truffaut, trabalha na produção de um drama sobre uma mulher que trai o marido e passa a envolver-se secretamente com o sogro. Porém, ao longo do processo, tudo começa a se desorganizar dentro e fora do set por diversos motivos: uma atriz que esquece as falas por beber demais, a protagonista que acaba de se recuperar de um colapso nervoso e intrigas envolvendo um dos atores principais. O título faz referência a uma técnica usada para transformar imagens filmadas à luz do dia em cenas noturnas, reforçando a ideia de que tudo é apenas encenação — assim como o próprio cinema.

02

Através das Oliveiras

Abbas Kiarostami
1994

Sendo o terceiro capítulo da famosa Trilogia de Koker, idealizada pelo diretor Abbas Kiarostami, o longa acompanha uma equipe de filmagem que está produzindo um filme na área rural de Koker, que foi destruída por um terremoto. Nessa produção diegética, um jovem pedreiro chamado Hossein faz o papel de um homem recém-casado ao lado de Tahereh. Contudo, na vida real, ele a ama e tenta cortejá-la, sem sucesso. Desse modo, o que parecia ser um romance fictício acaba por expor um drama verídico dentro do universo do longa. Kiarostami brinca com a noção de realidade dentro de sua própria narrativa, sendo um grande exemplo do metacinema realizado pelo iraniano.

03

Vivendo no Abandono

Tom DiCillo
1995

Esse grande episódio de sitcom em forma de filme independente gira em torno de uma diária da produção do longa fictício de baixo orçamento Vivendo no Abandono, partindo dos pontos de vista do impaciente diretor Nick Reve e da insegura atriz principal Nicole Springer. Brincando com a estrutura cíclica que envolve a pressão de um set caótico de produção barata — com astros prepotentes, diferenças criativas, problemas logísticos e muito mais —, DiCillo e seu elenco parecem se divertir com as possibilidades da situação, o jogo de cores e lentes, a montagem sagaz e uma narrativa metalinguística que funde a dramatização do filme diegético de Nick com o filme real de DiCillo.

04

Irma Vep

Olivier Assayas
1996

Irma Vep é uma personagem do filme francês Os Vampiros (Feuillade, 1915-1916), lançado nos cinemas em formato seriado. No filme de Assayas, a famosa atriz de Hong Kong, Maggie Cheung, é escalada para protagonizar seu remake. Ao chegar à França, Maggie (interpretando a si mesma) se depara com uma produção conturbada graças ao ego e às crises do diretor. As interações banais entre os trabalhadores quando longe do set reforçam esse aspecto quase documental e contrastam com as sequências em que Irma Vep é mostrada através da câmera dentro do filme. Maggie personifica, talvez, uma visão estrangeira sobre o estado de loucura do cinema francês..

05

A Sombra do Vampiro

E. Elias Merhige
2000

Nosferatu, dirigido por F.W. Murnau e lançado em 1922, é um dos filmes mais importantes da história e a obra que fixou o diretor como um gigante do cinema. A partir de sua curiosa produção — a qual, inclusive, rendeu um livro lançado no Brasil pela editora DarkSide Books —, E. Elias Merhige faz um exercício de imaginação: e se Max Schreck, ator que interpretou o temido Conde Orlok no filme original, fosse de fato um vampiro? A partir dessa proposta, A Sombra do Vampiro é uma ótima brincadeira não só com a produção cinematográfica como com a própria trama de Nosferatu, e conta com uma performance genial de Willem Dafoe como Schreck.

06

Plano-Sequência dos Mortos

Shinichiro Ueda
2007

Ueda exercita um humor mais escrachado, ao mesmo tempo que lida com o fazer cinematográfico de maneira inteligente e dinâmica. Acompanhamos o resultado final e, depois, a produção de um longa de zumbi na qual uma equipe de filmagem é atacada por zumbis reais. A experiência é marcante pela ideia da gravação ser transmitida ao vivo em um único plano-sequência no dia da estreia de um novo canal de TV, explorando todos os problemas que poderiam ocorrer em um set completamente caótico e estressante. Um dos melhores filmes sobre fazer cinema de maneira independente, com vários perrengues e gambiarras, mas gerando um resultado recompensador.

07

O Melhor Está por Vir

Nanni Moretti
2023

Nanni Moretti interpreta Giovanni, um velho diretor de cinema que se encontra em estado de crise criativa enquanto tenta terminar seu mais novo filme. Durante esse processo, ele se depara com vários desafios: um orçamento limitado, uma atriz problemática, tensões no casamento e conflitos familiares. Moretti retoma um tom mais íntimo em sua filmografia, adotando o protagonista de O Melhor Está por Vir como seu próprio alter ego, apresentando reflexões acerca das ideologias socialistas e comunistas e refletindo sobre o papel histórico delas na cultura e sociedade europeias.

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