Uma das principais características estéticas e narrativas do Spaghetti Western é o grande teor revisionista que seus diretores concedem as suas narrativas. Muito dessas ideias são bastante influenciadas pelas convenções do Western clássico das Américas: desde a desconstrução da moral de seus protagonistas e reflexões acerca da natureza da violência no cenário da terra sem lei até o principal tópico narrativo desmistificado em suas obras, que é o mito da expansão gloriosa dos Estados Unidos. Uma lenda americana construída em cima de genocídios e violência contra as minorias que habitavam as regiões alvo da expansão. Dia da Desforra é um daqueles filmes que buscam essa desmistificação do velho oeste, da suposta terra das oportunidades que, na realidade, é coberta com sangue.
Jonathan Corbett (Lee Van Cleef) não é um agente da ordem. Ele é apenas um mercenário que busca nada menos do que sua recompensa. Sem perguntar ou se questionar a cerca de sua missão, ele atira antes de pensar ou refletir sobre seu alvo. Essa modalidade de suas ações ganham peso quando sabemos que Corbett persegue um estuprador e pedófilo, fato esse que já é motivo o suficiente para tomarmos ódio de Cuchillo. Tanto o pistoleiro quanto nós que assistimos sua caça, nos encontramos em um estado de antagonização em relação a Cuchillo, e a personalidade largada e covarde dele auxilia nessa vilanização do mexicano, mesmo que não saibamos ao certo a veracidade de sua acusações, mas tanto seu jeito não convencional e sua etnia, que é tratado em certas partes do filmes como uma característica negativa, desenha uma figura nojenta.
Isso desperta o espanto de Corbett quando se depara com a verdade, ao descobrir que fora apenas uma peça na manipulação burguesa em prol de um suposto progresso. A partir disso, Sergio Sollima não apenas causa uma empolgação de verdadeiro Western, onde esperamos ao máximo as pistolas de seus personagens se encontrarem — ainda que esse embate deixe de ser apenas uma sequência de ação empolgante — mas também uma dose satisfatória de vingança e justiça, justiça não apenas contra um povo discriminado e menosprezado pelos americanos, mas uma justiça moral e ética, que não segue uma lei pré-estabelecida ou fundada em mentiras e que vai contra a monstruosidade ocasionada pelo “progresso” trazido pelos “homens do amanhã”
Lee Van Cleef pode até ser uma figura que exala essa imponência imbatível, sendo esse um dos principais pontos que constroem o caráter de seu personagem, mas, aqui, ele vai se encontrando no meio de uma disputa de influencias, onde o único caminho é prezar pela verdadeira justiça.