Aborto Na Sétima Arte: Ato Contra o PL 1904/2024
O aborto sempre foi um tabu. O principal argumento contra a interrupção da gravidez é que a morte do embrião seria assassinato e justamente este que está sendo o ponto central do Projeto de Lei 1904/24, que visa equiparar o aborto ao homicídio quando este for realizado após a 22ª semana de gestação. No entanto, a principal questão é que a proposta inclui também o aborto feito no caso de estupro, o qual hoje é legalizado e pode ser feito em qualquer momento da gestação.
Além do óbvio retrocesso de uma legislação em vigor desde a década de 1940, o problema que isso cria é a punição da vítima de estupro, que muitas vezes não descobre a gravidez em tempo hábil e também precisa passar por um processo demorado até conseguir a liberação para o procedimento. Também é válido ressaltar que mais de 60% dessas vítimas não completaram 13 anos de idade, muitas nem sabem que podem engravidar ou tem ciclos menstruais ainda erráticos.
A interrupção da gestação deveria ser tratada como assunto de saúde pública e não como questão religiosa, discutida por pessoas que possuem útero e não por homens cis velhos engravatados. O fato é que o aborto vai acontecer, mas pode ser feito em um ambiente limpo e seguro. Além disso nunca seria compulsório, sempre será uma escolha e esta deve ser respaldada por uma legislação que de assistência e proteja as vítimas de estupro e qualquer pessoa que queira interromper uma gestação.

Uma Canta, a Outra Não
Suzanne e Pauline se conhecem durante a onda de movimentos feministas dos anos 70. Suzanne tem dois filhos, e está grávida de mais um que, por vários motivos, não deseja manter. Então, pede a Pauline um empréstimo para realizar o aborto. A vida acaba por separar as duas, porém, anos depois, elas se reencontram e compartilham suas histórias. Em um filme sobre a força do coletivo, Varda desenha uma obra sobre duas mulheres diferentes (uma canta, a outra não), mas unidas pela vivência feminina. Uma narrativa sobre como a experiência em um mundo patriarcal une duas pessoas e constrói fortes laços por meio da sororidade.

Um Assunto de Mulheres
Claude Chabrol reconta a história real de Marie-Louise Giraud, uma mulher francesa guilhotinada pela realização de abortos ilegais. Um conto sobre a sobrevivência da população durante a guerra, e sobre a independência moral de Marie, interpretada de forma divina por Isabelle Huppert. Chabrol é extremamente humanista em sua abordagem, focando sua lente nas desilusões da protagonista, essas que aparentam desaparecer conforme os serviços de aborto são realizados, como não só uma forma de se manter financeiramente em tempos de crise, mas também de ajudar jovens mulheres a não perecerem diante dos tempos sombrios que as rodeavam.

Dirty Dancing
O romance entre a jovem rica, Baby, e o pobre instrutor de dança, Johnny, é o centro dessa história. No entanto, foi precisa a interrupção de uma gravidez para que essas duas pessoas pudessem se apaixonar. Baby vai passar férias com a família em um resort e, em uma festa, conhece Johnny e sua parceira de dança, Penny. A dançarina se envolve com um garçom trambiqueiro, engravida e, com a ajuda de Baby, consegue dinheiro para o aborto — visto que o jovem não quer assumir a criança — e também o tratamento para as consequências do procedimento clandestino. Nesse meio tempo, Baby assume a parceria com Johnny e os dois garantem o salário sazonal da moça.

4 Meses, 3 Semanas e 2 Dias
O título denuncia o período de gravidez de Gabriela, uma jovem universitária que, com a ajuda de sua melhor amiga Otília, pretende interromper a gestação de forma ilegal na Romênia dos anos 1980. De forma crua e minimalista, observamos a humilhação e os esforços desesperados das jovens. O aborto aqui é doloroso e sofrido, não somente pelo procedimento em si, mas também pela situação precária em que o país se encontrava na época, com a decadência socialista e refém de uma ditadura. A lei contra o aborto buscava o crescimento da população, e métodos contraceptivos eram escassos. Hoje, o aborto é legalizado irrestritamente na Romênia nas primeiras 14 semanas de gestação.

O Aborto dos Outros
Carla Gallo captura de forma sensível e impactante os conflitos vividos por meninas e mulheres que passaram pelo aborto (legalizado ou clandestino) no Brasil, representando conflitos relacionados aos princípios religiosos em relação à vida, a intolerância social, a solidão e a criminalização do aborto. O documentário promove uma profunda reflexão sobre a dupla violência sofrida por essas mulheres, primeiro pelo abusador e depois pela sociedade de forma geral. A forma escolhida pela diretora para contar essas histórias evidencia como o direito penal não é um meio efetivo para tratar o aborto, e como a criminalização leva à revitimização.

Nunca, Raramente, às Vezes, Sempre
Autumn, uma garota menor de idade, viaja com a prima da Pensilvânia até Nova York para conseguir interromper uma gravidez indesejada sem precisar do consentimento dos pais. O filme denuncia que, mesmo quando o aborto é legalizado, ainda há um esforço para fazer com que a mulher mude de ideia e, no caso dos Estados Unidos — como todo procedimento de saúde —tem um custo alto. A diretora usa de momentos de silêncio e de muita sensibilidade para retratar a dor e a tristeza de Autumn, que, pelas respostas do questionário do título, descobrimos que sofreu abusos em seus relacionamentos amorosos.

Levante
No ponto alto de sua jovem carreira no vôlei, Sofia descobre uma gravidez indesejada, e passa pelo turbilhão de dificuldades para tentar interrompê-la. Para além das diversas questões abordadas, como a falta de condições materiais, a precariedade da educação sexual e a hipocrisia dos supostos defensores da vida, Levante adentra no âmago de sua protagonista para compreender a sua fragilidade em face da sociedade e refletir sobre todas as complexidades essencialmente humanas que estão presentes em uma situação como essa, construindo uma obra que, por vezes, lembra um terror psicológico em decorrência da angústia constante de Sofia.