Após o enorme sucesso de Monty Python em Busca do Cálice Sagrado (Gilliam, 1975), a trupe de comédia britânica Monty Python escolheu outra história famosa como as lendas arturianas, também com uma figura messiânica traída por alguém de confiança: Jesus Cristo. Desta vez, porém, não seria fácil conseguir vender a ideia para um estúdio, a EMI Films, que inicialmente iria financiar o longa desistiu de última hora, quando já estava tudo organizado para começarem a gravar. Foi então que simplesmente George Harrison, o ex-Beatle, entrou na história e financiou a produção por meio de uma empresa criada especialmente para isso, a Handmade Films.

A essa altura o filme já não era mais sobre Jesus Cristo, mas sim sobre a vida de Brian, nascido no mesmo dia e em condições semelhantes a do messias da Bíblia. Os Python achavam que a piada não estava na figura de Jesus, que para eles foi um cara bacana, mas sim nos contextos ao redor dele, com isso Brian se torna um condutor para a sátira com fanatismo religioso, imperialismo, racismo e até desunião da esquerda e militância vazia. O que não impediu, obviamente, que o filme fosse acusado de blasfêmia por cristãos e judeus.

Brian, no entanto, é um homem simples e de bom coração, com uma mãe estressada, e que é levado pelas situações por tentar sempre fazer o bem. Por exemplo, quando ele se junta com um grupo de protesto (terroristas) contra o domínio romano e é repreendido por soldados, ou quando ele tenta aconselhar uma multidão a pensar individualmente e é compreendido e seguido como mensageiro de Deus. A jornada de Brian acontece de forma paralela a de Jesus, com alguns momentos convergentes. Além de também ser preso e condenado pelos romanos, de início ele está na multidão durante o famoso sermão da montanha, mas não consegue ouvir as palavras do profeta, em outro momento conhece um leproso que foi salvo pelo filho de Deus, mas que gostaria de voltar a ter uma doença para poder pedir dinheiro.

Enquanto os romanos são representados como tolos imperialistas incompetentes, o grupo “terrorista” não é muito mais esperto do que eles. As divergências entre os grupos judeus que são contra o regime romano são ressaltadas, bem como a falta de ação quando as situações pedem por mais do que discussões em esconderijos. Isso é criticado com piadas certeiras, por vezes as mais simples e fáceis, como chamar um romano de Dickus, e em outros momentos bem sutis, como na escolha dos símbolos sagrados de Brian, ou até completamente absurdas, como na ida dele ao espaço. A comédia permanece extremamente atual e a crítica tão relevante quanto na época.

Além de se sobressair no humor, o filme também é muito bem encenado e decupado. O ritmo é bem cadenciado, sempre permanecendo o tempo exato em cada situação para que a piada seja feita e compreendida e logo passando para a próxima, sem espaço para o tédio. Ademais, com as belas paisagens da Tunísia, alguns cenários aproveitados de Jesus de Nazaré (1977), de Franco Zeffirelli, e também a quantidade de cenas de multidão, o valor de produção parece mais alto do que o do filme anterior.

É muito interessante perceber que as questões que afligem a nossa sociedade, especialmente sobre política e religião, seguem as mesmas de quando o filme foi lançado, a quase 50 anos atrás. Ainda temos a multidão que procura cegamente por um líder ou profeta para seguir sem questionamento, bem como governos com paspalhões no comando ou até grupos anti hegemônicos divergentes entre si. Mas, principalmente, ainda é muito gostoso poder fazer piada – e o humor é uma arma importantíssima da crítica social – e dar boas risadas com isso tudo, enquanto tentamos olhar para o lado bom da vida.