2025 foi um dos anos mais prolíficos para o Twice. O lançamento do quarto álbum coreano This is For foi acompanhado do início de uma turnê mundial que quebrou recordes de público no mundo todo. Porém, elas não pararam por aí e lançaram também Enemy, o sexto álbum japonês e um dos seus projetos mais pessoais; além do tão esperado início da carreira solo de Chaeyoung com Lil Fantasy vol. 1, um dos álbuns mais únicos do gênero. Tanto conteúdo não costuma condizer com a idade do grupo, o qual completou dez anos de atividades ininterruptas em 2025, fato que gerou, por incrível que pareça, mais um álbum: Ten: The Story Goes On, uma comemoração a esse aniversário tão especial e que as coloca em um patamar diferenciado, visto que a maioria dos grupos sequer chega a esse tempo de carreira, muito menos sem fazer qualquer pausa. Por fim, essa celebração dos dez anos também deu origem ao documentário Twice: One in a Million, uma linda homenagem a tudo que faz delas únicas.

Àqueles que não têm contato com esse meio, cabe uma introdução. Twice é um grupo sul-coreano de k-pop nascido em 2015 na JYP Entertainment, a partir do reality show Sixteen, sendo composto pelas coreanas Im Nayeon, Yoo Jeongyeon, Park Jihyo, Kim Dahyun e Son Chaeyoung; pelo trio japonês Hirai Momo, Minatozaki Sana e Myōi Mina; e pela taiwanesa/chinesa Chou Tzuyu. Desde então, tornou-se um dos grandes representantes da expansão mundial do k-pop, ao lado dos gigantes BTS e Blackpink, sendo responsável principalmente por conquistar a Ásia com canções icônicas como Cheer Up, TT, What is Love? e Fancy. Entretanto, especialmente após seu primeiro single em inglês The Feels, combinado com a mudança total da estética do grupo, que ficou mais adulto e sofisticado a partir de 2020, conquistaram um imenso grupo de fãs no ocidente também.

Entre tantas histórias, músicas, vídeos, performances e turnês, é difícil para um filme como Twice: One in a Million adentrar em tudo. Por isso, a opção do diretor foi construí-lo mais como uma homenagem ao grupo e aos fãs em detrimento da adoção de um caráter mais informativo. Para tanto, organizou o longa de maneira bastante interessante, dividindo-o em seções dedicadas a cada integrante e intercalando esses segmentos focados com abordagens mais gerais; o que faz surgir um dinamismo muito interessante ao documentário e o tira daquela visão protocolar e jornalística na maior parte do tempo — principalmente por abordar cada trecho com um recorte e uma forma próprios, dando uma merecida voz às individualidades das meninas.

Após uma breve introdução mostrando alguns dos grandes momentos desses dez anos, passamos à primeira seção, dedicada a Nayeon, a mais velha e também uma das mais populares e um dos pilares de sustentação do grupo, tanto musicalmente (afinal, é uma das responsáveis pelo vocal principal) quanto internamente. Como disse antes, é impossível abordar todo o tempo dela no meio do k-pop, que perdura desde 2010, quando começou como trainee; então, o recorte adotado enfoca a sua carreira solo, lançada em 2022 com o álbum Im Nayeon. Porém, isso é suficiente para conhecermos ainda mais a unnie do grupo e sua persona gentil e alegre, que prioriza a felicidade coletiva da banda acima de tudo; tendo inclusive recusado lançar uma carreira solo antes para não prejudicar as atividades do Twice. Mais à frente, Nayeon protagoniza um dos momentos mais legais do documentário, consistente em um cover solo da música Stuck, um dos vários novos conteúdos que elas prepararam para os fãs.

Então, passamos para alguém diametralmente diferente: Chaeyoung, quatro anos mais nova, inicialmente posicionada como rapper principal (função que já está bem relativizada) e, sem dúvidas, a pessoa mais criativa do grupo. O filme, nesse ponto, migra para um formato mais direto (o documentário expositivo, segundo a terminologia de Bill Nichols) e adequado a essa artista tão exótica. O recorte, novamente, é a carreira solo, mas dessa vez apresentada de maneira distinta, visto que o álbum de Chaeyoung, Lil Fantasy vol. 1, de 2025, tem pouco a ver com o de Nayeon; e a sua obra é usada como meio de comentar sobre essa pessoa fascinante, criativa, avoada, teimosa e irreverente. Aborda-se desde sua expressão artística com os desenhos e composições que tomaram vida em Lil Fantasy vol. 1, destacando os videoclipes de Shoot (Firecracker) e Avocado, até questões que geraram embates com a mídia e com a empresa, notavelmente as tatuagens, um tabu no país e que ela foi uma das responsáveis por desafiar no meio das celebridades femininas.

Twice: One in a Million

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Jeongyeon, Mina, Jihyo, Tzuyu, Sana, Nayeon, Momo, Dahyun, Chaeyoung

Após Chaeyoung, o filme nos leva a outro oposto: Momo. Da abordagem mais intimista da artista cabeça-dura, vamos a um trecho mais “megalomaníaco”, em algum sentido. Momo é a dançarina principal, tida merecidamente como uma das grandes dançarinas da história do k-pop. Contudo, não é uma pessoa da qual conhecemos tanto assim nesses dez anos; e sua escolha por não revelar tanto de sua personalidade pode ser erroneamente confundida com uma ausência de personalidade — e o fato de ela sempre aparentar estar desatenta e dispersa não ajuda. Sabendo disso, o documentário escolhe focar em mostrar um lado inusitado dela, trazendo menções das outras integrantes sobre como Momo, na realidade, é a mais ambiciosa e perfeccionista entre as nove, o que reflete na sua incrível habilidade como dançarina, consolidada em uma excelente performance exclusiva para o documentário. Além disso, aborda a insegurança da main dancer em relação à sua voz, aspecto que a fez pensar em desistir, e as dificuldades de aceitar suas características vocais e entender como sua participação poderia agregar à música; voz essa que, quando bem utilizada, é uma das mais únicas do gênero. Ainda na seção de Momo, é dedicado um pequeno trecho ao projeto paralelo mais bem sucedido do Twice, o MISAMO, trio formado pelas japonesas do grupo, e que conta com dois EPs e um álbum até a presente data. Passamos por alguns de seus grandes momentos, como o show lotado no imenso Tokyo Dome, e o apoio das demais integrantes a essa subunidade.

Da sensualidade e dança, passa-se ao raio de sol do grupo: Sana; uma das pessoas mais felizes, adoráveis e calorosas que há no mundo da música hoje. Por alguns minutos, entramos no mundinho dela, na seção que considero um dos pontos altos do longa. É um segmento mais simples, focado em deixar a japonesa falar — algo que poderia facilmente preencher um filme por si só — sobre seu desenvolvimento como pessoa e como artista, abordando tanto a sua personalidade alegre e sociável quanto lados diferentes e desconhecidos do público, como seu desejo por não se resumir a uma imagem (o que realizou com êxito, conseguindo construir de forma extremamente versátil e único uma persona que é um misto de alegria, fofura, sensualidade e elegância) e, enfim, seu amor incondicional às suas colegas de grupo, manifestado em oito perfumes que fez para presenteá-las. Ainda há mais um detalhe sobre Sana e seu apego ao Twice, porém deixarei para comentar isso mais à frente, quando voltarei minha atenção àqueles trechos mais gerais.

Saindo desse universo alegre que é a mente de Sana, adentramos em outra integrante peculiar: Tzuyu. Por vários motivos, assim como Chaeyoung, essa é uma das pessoas mais curiosas e singulares do k-pop. Recrutada como trainee em 2012, tornou-se a maknae (membro mais novo) do Twice quando debutou com apenas 16 anos. Imigrante de Taiwan/China, não conhecia a língua coreana e não tinha, no início, outros originários daquele país para a apoiarem. Vale citar uma história não mencionada no documentário, mas que considero relevante para entendê-la: em 2015, Tzuyu, ainda adolescente, segurou a bandeira de Taiwan em um programa de TV — possivelmente a mando do programa ou da gravadora —, fato que a colocou no centro de uma polêmica internacional e foi utilizado como arma política nas eleições taiwanesas de 2016, as quais Tzuyu, involuntariamente, ajudou a decidir. Esse incidente levou o Twice a ser banido de se apresentar na província por dez anos, tendo retornado apenas em 2025, quando o grupo fez três shows lendários e inéditos em Kaohsiung, fato que mobilizou toda a nação, levou o seu presidente a chamá-la de “Princesa de Taiwan”, e pintou as ruas e monumentos históricos de azul (a cor de Tzuyu) e gerou uma demanda tão grande que provocou o anúncio de mais shows, agora na capital Taipei, programados para 2026. Esse contexto é essencial para entender a maknae, uma vez que, após isso, ela se tornou bastante reclusa e assumiu uma persona diferente no k-pop, primeiro por ter, secretamente, se formado e feito um mestrado em psicologia; segundo por, apesar de valorizar sua privacidade, se consolidou como dona de um dos visuais mais influentes e bem quistos do país. No âmbito do documentário, ela é vista mais em conexão ao restante do grupo, que sempre a tratou como a “irmã mais nova” e tentou a proteger como tal; e como esse apoio foi importante para sua inusitada carreira solo, que se iniciou em 2024 com o álbum Aboutzu. É um trecho sobre amizade, materializado nas cartas que ela usa para se expressar, por se considerar ruim com discursos orais, e também sobre a sua divertida imprevisibilidade, como mencionam as outras.

Twice: One in a Million

Da esquerda para a direita, de cima para baixo: Sana, Tzuyu, Mina, Dahyun, Jeongyeon, Nayeon, Jihyo, Momo, Chaeyoung

Os rumos do filme mudam totalmente com a transição da adorável Tzuyu para a líder Jihyo. Se há Twice, muito dessa responsabilidade recai sobre ela, que foi trainee por nada menos que dez anos antes de debutar, deixando-a com vinte anos de experiência, mesmo possuindo apenas 29 de idade. Aqui, a direção a explora por meio de depoimentos e cenas do grupo, posicionando-a corretamente como a espinha dorsal de tudo. Conhecemos um pouco do seu processo de se tornar a líder, de como uma menina que sequer tinha coragem de fazer seu pedido em um restaurante passou a administrar um dos maiores grupos musicais do mundo, atuando também como vocal principal e tendo uma carreira solo lançada em 2023 com o álbum ZONE. Vemos não só a importância de sua liderança como também os encargos que ela traz; mostrando um lado sensível de Jihyo, que se culpa constantemente por todas as intercorrências do Twice enquanto tenta fazer seu melhor. Sendo assim um segmento mais emocionalmente denso por essas nuances, mas sem perder o bom humor e a leveza, afinal, Jihyo não é somente a “chefe”, mas é também uma das responsáveis por dar energia ao grupo. Desse modo, vemos um pouco de seu amor pelo seu trabalho e pelas performances (algo perceptível em qualquer apresentação do grupo) quando a líder prepara um espetacular número de dança exclusivo para o documentário, que fecha sua seção.

Das angústias da liderança, passamos àquela que nem sempre encontrou seu lugar dentre todo o talento da banda: Dahyun. Inicialmente ocupante da posição de main rapper ao lado de Chaeyoung, viu sua função mudar ao longo dos anos, permanecendo mais como um suporte, tanto ao vocal quanto à dança. Apesar de eventualmente parecer deslocada, o amor dos fãs sempre a trouxe confiança, o que a influenciou a realizar um sonho de infância, o de atuar. Por isso, estrelou em 2025 os filmes A Menina dos Meus Olhos (tem crítica aqui na Revista) e Run To You, além da série Love Me, e é a carreira de atriz que serve como base principal dessa parte do documentário, que toma aqui um caráter mais jornalístico. Vemos um lado diferente de Dahyun, especialmente acerca de como essa persona animada e protagonista das performances esconde uma menina reclusa, quieta e insegura na sua vida privada — algo que dá mais camadas a ela do que costumamos ver. Ainda que o filme se situe um pouco afastado da atriz, não considero que isso seja um demérito da direção em si; acho que pode ser atribuído mais a uma escolha da artista, sempre muito cuidadosa com sua imagem pública e diligente ao esconder quase todos os detalhes de sua vida privada.

Cenas mostrando o apoio incondicional de suas colegas e uma diversidade de elogios dos produtores por sua atuação terminam o trecho de Dahyun e marcam a transição para Mina. Japonesa nascida nos Estados Unidos, dançarina principal, ex-bailarina e a mais elegante do grupo, é também a mais tímida e calma. Internalizando esse estilo, a direção tenta adentrar de maneira minimalista e minuciosa no âmago da artista ao mostrar como, por trás dessa timidez, esconde-se uma pessoa calorosa e aberta a novas experiências, como o documentário e as integrantes fazem questão de demonstrar ao citar sua marcante apresentação solo na turnê Ready to Be, em que adota uma persona totalmente diferente do habitual. O segmento é finalizado pelo trecho mais relaxante do longa — como disse, correspondente à personalidade de Mina —, quando ela realiza o sonho de fazer uma sessão de fotos debaixo d’água, cujos resultados são espetaculares.

Já perto do final do longa, a calmaria dá lugar ao caos. Na introdução à última seção, temos um adiantamento disso — algo que os fãs já esperavam também — quando é mostrado um conjunto de notícias acerca do afastamento de integrantes e um breve relato de Mina sobre a crise de saúde mental que a tirou do grupo por alguns meses em 2019, abrindo caminho para o grande momento do filme: quando aborda Jeongyeon.

Após cinco anos como trainee, nos quais um projeto cancelado a fez cogitar desistir, Yoo Jeongyeon debutou no Twice como vocal principal e logo se tornou um dos grandes pilares de apoio do grupo ao lado de Jihyo. Enquanto a líder ainda se desenvolvia, ela já atuava colocando ordem em tudo, tanto no dormitório em que elas viveram nos primeiros anos quanto na vida profissional. Contudo, de uma das mulheres mais admiradas do país por seu talento, sua voz marcante e sua bondade — concretizada nas diversas ações de caridade que fez e promoveu ao longo dos anos —, ela se tornou notícia em 2020 quando, por conta de uma cirurgia de hérnia de disco e do tratamento posterior, acabou ganhando peso — pouco, mas o suficiente para a afastar do estrito e irracional padrão estético sul-coreano — e isso, entre outros motivos pessoais, a fez passar por crises de ansiedade e picos depressivos no final do mesmo ano. A saúde mental a forçou a se afastar por quase um ano e meio, período o qual o documentário mostra que foi muito mais difícil do que o público imaginava. É revelado no longa que o medo de perder Jeongyeon inspirou Jihyo, sua melhor amiga, a escrever a melancólica música Cactus, cujo significado era, até então, desconhecido, e rende ao longa uma performance vocal emocionante de Jeongyeon, facilmente o ponto alto do filme. Esse trecho serve como uma finalização muito digna à jornada pelas individualidades das artistas, reafirmando todos os temas que foram desenvolvidos até então: amizade, respeito, valorização das diferenças, apoio e, claro, o caráter de família que o grupo acabou tomando.

Twice: One in a Million

Essas nove peças tão diferentes formam um quebra-cabeça, o qual é mostrado aos poucos entre as seções. Esses interlúdios coletivos servem para amarrar as unidades de cada integrante em um todo que forma o tema do documentário; mostrando suas personalidades não só em sua individualidade mas em interação com o grupo. São trechos lindos, em que vemos a relação delas entre si e com os fãs. Mencionam-se momentos em que o grupo esteve prestes a acabar — notavelmente a renovação de contrato de 2022, que foi travada por conflitos não especificados entre o grupo e a empresa, e gera um emocionante momento no documentário ao mostrar Sana tendo crises de choro em shows da época por conta disso —, mas também momentos positivamente inesquecíveis: a primeira vitória de um prêmio principal no MAMA Awards (o maior prêmio do k-pop) em 2016, a presença e amor incondicionais dos fãs nas turnês, o crescimento ocidental com o Lollapalooza 2025, o filme Guerreiras do K-Pop, entre outros.

Entretanto, vale dizer que esse caráter de homenagem gera uma consequência negativa, na minha opinião: a falta de profundidade. Que o documentário iria ser “chapa branca” e não citar certas intercorrências era esperado por conta da produção (o incidente da bandeira que mencionei antes, por exemplo, sequer é citado, e o mesmo ocorre com os milhares de problemas estruturais da indústria fonográfica sul-coreana) e, por isso, não levo como aspecto negativo. Todavia, mesmo dentro dos limites propostos, acho que faz falta um maior aprofundamento em diversas outras questões; como as razões para o afastamento de Mina e de Jeongyeon — algo que teria um papel crucial não só por explorar as nuances da personalidade delas como servir de alerta para jovens que passam por isso e jogar luz à questão da saúde mental no k-pop —; e as inseguranças, que já foram brevemente tratadas em Enemy e no vídeo introdutório ao álbum, que poderiam ter uma maior atenção aqui; para citar apenas dois exemplos. Mas não sinto falta apenas dessas partes mais tristes: também gostaria de passar mais tempo com o lado feliz delas — com a energia de Sana e Nayeon; com as interações divertidas de Jeongyeon e Jihyo; com a mente peculiar de Chaeyoung, Tzuyu e Momo; e com a calmaria das tímidas Dahyun e Mina. Em suma, sinto falta de uma abordagem mais intimista ser estendida também aos trechos dedicados ao grupo, que eventualmente se tornam um pouco jornalísticos e prolixos.

Ainda assim, Twice: One in a Million é lindo, como acho que foi possível perceber a partir da minha empolgação em falar sobre ele. Entre a felicidade, a diversão e a emoção, lembra a todos a razão pela qual vale a pena acompanhar o Twice. A sinceridade, o carisma e o talento dessas meninas é único; o grupo é, realmente, um em um milhão, e somos sortudos de sermos contemporâneos delas e termos a oportunidade de ouvir a sua extensa e ótima discografia, de acompanhar suas divertidas personalidades em reality shows, de nos emocionar com suas histórias e de nos inspirarmos por sua amizade e bondade. Poderia ser maior e mais profundo, porém, o que há já é suficiente para construir uma bela e marcante homenagem, e servir como um ponto de partida para os próximos dez anos, os quais eu e milhões de outras pessoas iremos acompanhar. Para finalizar essa crítica — que ficou mais parecendo uma carta de amor — repito parte da letra de I Got You:

No matter what, you got me
I got you, and I wouldn’t want it any other way
No drop of doubt, I know deep down that
We’ll make it through
Just like we always do

Twice: One in a Million