Após o lançamento direto para vídeo de Ju-on: The Curse, ainda havia uma parte do enredo faltando. O primeiro terminava com um gancho para uma continuação, a qual já havia sido filmada junto com ele e chegaria ao público um mês depois. Desta vez, dado o sucesso do anterior, houve um lançamento limitado nos cinemas japoneses antes de ir para a fita de vídeo. Nesse cenário, quando os espectadores foram assistir a Ju-on: The Curse 2, um fato causou estranheza: dos 76 minutos da obra, 30 são uma repetição da produção anterior, sem adicionar nem alterar nada. Há diversas especulações sobre a razão disso. Alguns dizem que o objetivo foi acomodar aqueles desavisados que fossem ao cinema ou assistissem na televisão sem ter tido acesso ao primeiro antes. Outros afirmam que a duração de 46 minutos não permitiria um lançamento nos cinemas nem cumpriria as exigências dos canais de televisão, e o orçamento reduzido não teria viabilizado a realização de mais cenas para completar o tempo. Provavelmente, é um misto desses dois motivos. Inclusive, li pessoas falando que Takashi Shimizu confirma essas hipóteses em um bônus de um dos lançamentos em Blu-Ray do filme, porém não consegui confirmar tal informação, então a mantenho no campo da especulação. Incontroverso, porém, é o fato de que este segundo apresenta um material novo bastante reduzido.
Nos segmentos inéditos, a trama começa onde o primeiro terminou. Assim, acompanha Kyoko (Yuko Daike), a irmã sensitiva de Tatsuya (Makoto Ashikawa), um agente imobiliário que pretende vender a casa dos Saeki. Após visitar a residência e sentir a perturbação ali presente, eles passam a ser assombrados pela maldição da família, o que os leva a descobrir novas informações sobre o ocorrido enquanto tentam sobreviver. Por serem ambos os filmes intimamente ligados, recomendo a leitura de meu texto sobre Ju-on: The Curse antes de prosseguir com este.
O ponto negativo mais notável da obra é, sem dúvida, a sua duração reduzida, quando consideradas apenas as novas cenas. Apesar de ser compreensível a razão por trás da repetição do antecessor, os novos segmentos pouco adicionam, parecendo mais um conjunto de cenas deletadas do primeiro, algo que poderia ser resolvido se Ju-on: The Curse tivesse duas horas, ou através de uma versão estendida. Além da duração, esse aspecto é reforçado pela própria proposta do longa, que tem como preocupação precípua um detalhamento e uma finalização daquilo já abordado no anterior, faltando a esta obra uma identidade própria.

A trama de Kyoko, que fecha o primeiro e abre o segundo, é intrigante. Gosto muito de como esses personagens sensitivos são tratados com naturalidade nos filmes japoneses de terror. Culturalmente falando, a divisão do plano espiritual e do plano físico na tradição japonesa é menos aparente do que o Ocidente está acostumado; então, sendo os fantasmas parte do mundo natural, pessoas com a percepção espiritual aguçada também são. Apesar de o formato de Ju-on prescindir de um interlocutor — visto que a obra se permite relatar acontecimentos em tempos e lugares diferentes a partir de um olhar universal, podendo, por exemplo, criar um segmento posterior contando a origem da maldição sem qualquer prejuízo à coesão —, o uso das habilidades de Kyoko para esse fim cria uma dinâmica interessante ao desenvolver um suspense em relação aos horrores perpetrados por Takeo. Desse modo, quando o diretor resolve ampliar a mitologia, a adição de Kyoko faz com que essa nova história se distancie de um formato informativo e se torne objeto de uma dinâmica que o afasta do primeiro, algo que ameniza esse caráter de “cenas deletadas” que comentei antes.
Da mesma forma, temas como a possessão e a manipulação da realidade, que serão importantes para as obras seguintes, começam a aparecer aqui. Contudo, o impacto desses trechos é bastante reduzido pelo fato de ficarem um pouco desconexos do resto, justamente pela escassez de cenas; e pelo orçamento reduzido não permitir composições tão bem elaboradas. Esses fatores eram compensados, no primeiro filme, pela atmosfera, pelo posicionamento de cenas assustadoras de maneira eventual e por estas precisarem de muito pouco, em termos técnicos, para perturbar. Cenas realmente “grandiosas” eram escassas; o que traumatizava eram esses detalhes, como a questão do som que mencionei no meu texto anterior. No segundo, o pouco tempo é preenchido com uma quantidade razoável de cenas assustadoras, tirando o impacto delas; aspecto que reforça mais uma vez a aparência de que a produção é um conjunto de trechos retirados de uma versão estendida nunca lançada.
Isso não significa que o filme seja ruim. Há pouco a adicionar em relação ao que apontei sobre o primeiro no que diz respeito ao visual, à ambientação, às atuações, ao som, à trilha sonora e a outros elementos. Ambos foram filmados juntos, lançados no mesmo ano e representam a mesma visão do diretor. Só não são considerados uma obra só porque nunca foram reunidos dessa forma — o que acho um desperdício absurdo — e porque há algumas diferenças de escala que o tornam “maior” que seu antecessor. Logo, sendo essas particularidades executadas com excelência no primeiro, o segundo acompanha.
Assim, os longas são tão formalmente semelhantes que se torna difícil escrever uma crítica para The Curse 2 sem cair em uma repetição da crítica de The Curse. Tudo que há para elogiar nesta obra é o que já estava presente em sua antecessora, talvez somente com a adição dos destaques para a atuação da belíssima Yūko Daike como Kyoko e de Makoto Ashikawa como Tatsuya (os dois já estavam no anterior, porém aqui ganham muito mais tempo de tela), além da assombrosa composição da cena da visão sobre o assassinato de Manami. Por outro lado, como disse antes, é frustrante ver como ele parece um mero apêndice do primeiro; e como essa característica: (i) enfraquece o potencial de trechos como a aparição final de Kayako, por falhar em construir um substrato prévio; e (ii) deixa a obra sem uma identidade própria, uma vez que os segmentos aqui abordados poderiam ser diluídos em uma versão estendida de Ju-on: The Curse sem nenhum prejuízo.
Ju-on: The Curse 2 serve, assim, como uma ampliação do primeiro e uma ponte dele com Ju-on: O Grito, que sairia dois anos depois. Apesar de não ter tanto valor como obra autocontida, seria desonesto dizer que não é aproveitável e que não tem boas ideias, por continuar a genial proposta formal de seu antecessor, sendo ambos, juntos, um dos melhores empregos do formato de terror de baixo orçamento feito para televisão que tive contato.