Cara-de-Barro é um vilão relativamente pouco conhecido dos quadrinhos de Batman. O personagem já teve vários nomes e histórias de origem diferentes; a mais icônica delas sendo a da série animada dos anos 90, que apresenta Matt Hagen, um ator de cinema cujo rosto foi desfigurado em um acidente, e agora está envolvido com a máfia para ter acesso a um creme milagroso que lhe permite moldar o próprio rosto para voltar à aparência original, além de se transformar em outras pessoas, mas o deixa viciado e raivoso. Foi essa a inspiração de Mike Flanagan para a história de Cara-de-Barro, projeto que conquistou James Gunn (atual manda-chuva do universo cinematográfico da DC) e conseguiu assim a aprovação do DC Studios para ser realizado.
Em Cara-de-Barro, Matt Hagen (Tom Rhys Harris) é um ator famoso que está prestes a atingir o ápice de sua carreira, pois recebeu uma indicação ao Oscar e tem chance de vitória. Porém, sua vida desmorona quando ele se envolve por uma noite com Mia (Joana Ribeiro), a namorada de um chefão da máfia, e tem seu rosto desfigurado por esse mafioso como punição. Por mais que seja interessante, na teoria, a ideia de tornar a causa do desfiguramento de Matt uma consequência de seu próprio comportamento egocêntrico, a maneira como o filme retrata a sensualidade e sedução de Mia, bem como o seu descaso por Matt, acaba a transformando na vilã femme fatale responsável pelo declínio do pobre protagonista. Essa narrativa é reforçada quando, além de suposta causadora de todo o incidente, ela ainda dá à mídia o depoimento de que foi abusada por Matt, tornando-se assim o pesadelo dos conservadores da vida real que relativizam o estupro: a mulher hipotética que vai fazer uma acusação falsa para acabar com a vida de um homem.
Por mais que saibamos que um filme baseado no universo de Batman não é feito com a pretensão de ser tão profundo assim, é impossível ignorar o machismo nesse ponto de partida da trama — principalmente considerando que o outro filme de origem de um vilão de Batman (e provável motivo pelo qual Cara-de-Barro chegou a ser feito) é Coringa (Phillips, 2019), tido hoje como a magnum opus da cultura incel/redpill. A proposta de ter um “vilão” como protagonista, por vezes, se mostra complicada, pois, dentro da estrutura comum de narrativa dos filmes hollywoodianos, o protagonista é quem guia o espectador, trazendo o ponto de vista com o qual se espera que empatize. Esse apontamento, no entanto, não é feito com o intuito de cobrar moralidade da arte; é apenas um lembrete de que toda obra de ficção existe dentro de um contexto social, e os grandes estúdios de Hollywood não são imparciais ao escolher que tipo de história merece ser contada.

Voltando à trama, Matt Hagen, por causa de seu rosto desfigurado, perde não apenas a sua carreira de ator, mas também toda a fortuna que tinha ao se submeter a cirurgias plásticas que não funcionam, além de insistir em um processo legal (obviamente perdido) contra o tal chefão da máfia que o atacou, pedindo indenização pelos danos causados à sua imagem pública. Agora, pobre e humilhado, ele decide ir atrás da Dra. Caitlyn Corr (Naomi Ackie) a fim de se oferecer como cobaia para seu estudo de células capazes de regenerar o corpo. O ponto alto do filme está na relação entre os dois personagens, que se tornam cúmplices nesse experimento ilegal e passam a depender emocionalmente um do outro. Caitlyn tenta, através do tratamento de Matt, superar a culpa e a frustração por não ter concluído o estudo a tempo de curar seu irmão de uma doença degenerativa; enquanto Matt vê em Caitlyn sua única salvação, a âncora que o ajuda a não perder a humanidade. Graças aos dois ótimos atores, a tensão entre os personagens é palpável, demonstrada em olhares que carregam aquilo que não é dito. Há um quê de romance gótico, de O Fantasma da Ópera ou Frankenstein, com a bela donzela que vê no monstro o reflexo da injustiça, que surge por um momento e é retomado ao final, porém não dita o tom do longa.
Surpreendentemente, o filme, ao invés de mergulhar de cabeça no gênero do horror (o que, teoricamente, é a sua proposta), ou se valer da trama de assassinatos e mafiosos para construir um noir (como são os episódios da série animada de Batman que inspiraram o projeto), acaba enfatizando demais a ficção científica. São as explicações mirabolantes para a tecnologia das tais células regeneradoras, as mudanças corporais de Matt tratadas mais como superpoderes recém-adquiridos do que como algo monstruoso e até mesmo a estética de cores lavadas e baixo contraste. Sinto falta da cor preta, de mais sangue e imagens grotescas para trazer o peso e a materialidade da dor. O filme conta apenas com efeitos visuais limpinhos demais para trazer o corpo distorcido do Cara-de-Barro à tela.
O tema da perda de identidade é sugerido através desse corpo disforme do personagem, por meio da ideia de um ator que se transforma em outras pessoas (literalmente, nesse caso) e perde a si mesmo, porém não tem o desenvolvimento que merecia no desenrolar da trama. Esse talvez seja o cerne do horror psicológico e corporal que o filme parece querer trazer, a julgar pela conclusão. No entanto, qualquer resquício de tensão e suspense que ainda restava ali é perdido no fraquíssimo terceiro ato, em meio a sequências de ação com tom humorístico, que não permitem que o espectador se envolva mais profundamente com a história.
Aquilo que deixa o longa competente o suficiente para não passar vergonha é, no fim das contas, uma meia dúzia de boas ideias perdidas ali no roteiro, e, principalmente, as maravilhosas atuações de Tom Rhys Harries e Naomi Ackie, que conseguem trazer verdade aos seus personagens mesmo nos momentos em que as situações beiram o ridículo.