Zona Zero encontra nos próprios zumbis seu maior mérito, mas também expõe, através deles, o principal problema de sua mise-en-scène. É um filme que sabe produzir uma presença física muito particular para essas criaturas, trabalhando com atores zumbificados e uma ação prática, que transforma os corpos em elementos concretos dentro do espaço. Há uma noção de terror realista que nasce justamente da maneira como esses corpos se movimentam, se acumulam e perseguem os personagens, portanto, provavelmente estamos diante de alguns dos melhores zumbis dos últimos anos no cinema. O problema é que essa força corporal raramente encontra uma construção visual à sua altura.
Paradoxalmente, quanto mais o filme acerta na fisicalidade de seus zumbis, menos parece interessado em construir imagens com eles. A mise-en-scène é frequentemente esquecida em detrimento de um ritmo frenético de perseguições por corredores, faltando um cuidado maior em resolver as cenas individualmente do ponto de vista visual. O filme sabe muito bem como coreografar os corpos, mas nem sempre sabe como organizar esses corpos dentro de uma imagem. A câmera acompanha a velocidade das perseguições e dos confrontos, mas quase tudo parece subordinado à necessidade de manter o movimento constante, como se a ação precisasse continuar antes que a cena pudesse encontrar uma forma própria.
Em Zona Zero, não há grandes cenas ou set pieces isoladamente, embora o roteiro dê oportunidades para isso com pequenos clímaxes envolvendo vários personagens tendo seus finais. O que se mantém é mais uma imposição de ritmo padronizado de resoluções práticas como um todo. Cada situação de perigo parece cumprir a mesma função dentro da engrenagem: perseguição, fuga, obstáculo, resolução e novamente perseguição. Mesmo quando os corpos dos zumbis oferecem possibilidades muito interessantes de encenação, a repetição desse mecanismo impede que essas situações adquiram uma identidade visual ou dramática própria.
Por isso, o problema de Zona Zero não está propriamente na velocidade, nem na violência ou na maneira como o filme constrói seus zumbis, mas na incapacidade de transformar essas qualidades em cenas que permaneçam na memória individualmente. Há uma diferença entre saber movimentar corpos e saber construir imagens com eles, e o filme parece muito mais interessado na primeira coisa. Seus zumbis são excelentes justamente porque possuem uma presença física tão forte, mas a mise-en-scène não consegue absorver essa força e transformá-la em uma dramaturgia visual mais rica. No fim, o que permanece é menos a lembrança de grandes set pieces do que a sensação de ter atravessado uma longa sucessão de perseguições muito bem executadas.
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