O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS!!!
Discussões como “efeitos visuais datados”, “filmes que envelheceram mal”, entre outras que se popularizaram na cinefilia recente, acabam soando anacrônicas justamente por não contextualizarem certa obra com a época de sua produção e lançamento. Todo filme – tematicamente ou esteticamente – é fruto inerente de seu tempo e tal noção é importante para a compreensão de qualquer expressão artística, seja ela mais comercial ou não.
E é fascinante como a franquia Alien pode gerar uma aula em torno disso se levarmos em consideração a relação entre Alien: O Oitavo Passageiro (Scott, 1979) e essa sua sequência lançada sete anos depois, Aliens: O Resgate que, vale ressaltar, já chega com uma mudança mínima no título original que passa do singular para o plural, informação que se revela bem mais importante do que aparenta. Se o primeiro capítulo havia sido impulsionado pelo sucesso de Star Wars (Lucas, 1977) e Tubarão (Spielberg, 1975), criando uma ficção científica espacial paciente e retro-futurista, Cameron assume a continuação a partir do cinema de ação “brucutu” que tornava-se tendência no período, muito por conta do próprio O Exterminador do Futuro (1984), também de Cameron.
O diretor subverte toda a abordagem de Scott e cria quase um “anti-Alien” a partir de um épico de ação militarista cuja ameaça não se concentra mais no desconhecido mas sim na potência numérica (eis a sacada do título). Afinal, se um xenomorfo já havia causado um estrago no capítulo anterior, imagina toda uma “colônia” deles! Essa é a ideia ameaçadora em que Cameron baseia todo seu projeto, e em momento algum dispensa a abordagem frontal do horror em prol da ação.
Ambos os gêneros são trabalhados para formar uma massa homogênea que, aos poucos, volta a remeter ao clímax do filme original, deixando Ripley à mercê de uma contagem regressiva… mas claro, com uma dimensão muito maior e mais desesperadora, tornando-se um espetáculo apoteótico do cinema blockbuster. O filme que antes se destacava pelo seu minimalismo agora era repensado de forma maximalista.
Vale destaque também para a diferença da abordagem dos personagens entre o longa original e Aliens: O Resgate. Se Scott dava uma relevância maior para cada tripulante da nave Nostromo, que figuravam como simples trabalhadores espaciais, Cameron foca na massa armada e arrogante dos fuzileiros coloniais justamente para potencializar o horror dos xenomorfos ao passo que tais soldados são dizimados com extrema facilidade.
Isso acarreta em um foco muito maior na própria Ellen Ripley, vivida por Sigourney Weaver, que dessa vez surge mais como autoridade traumatizada do que como “final girl”. Esse é um tropo que, atualmente, já vimos acontecer com inúmeras protagonistas de filmes de gênero (Sarah Connor e Laurie Strode que o digam), mas que aqui ganha um significado a mais, já que a direção a enxerga como uma mãe que perdeu tudo – isso é reforçado pela versão estendida que revela algo traumático sobre o que se passou em sua vida.
Com isso, o clímax com a “Rainha Xenomorfa” e os ovos surge como uma batalha até a morte entre duas mães que tentam proteger sua prole, com a garotinha Newt (Carrie Henn) também em jogo, o que reforça ainda mais como Alien parece uma cinessérie que reforça a ideia do ser humano como pertencente à natureza, apesar de seu “complexo de Deus”.
No fim, nada mais justo do que tratar sobre Aliens: O Resgate no Dia das Mães, no qual o mero instinto protetor de uma rainha sobre sua prole (simbólica ou não), gerou uma das citações mais impactantes e arrepiantes de todo o cinema blockbuster:
“GET AWAY FROM HER, YOU BITCH!”