Em As Corças, Claude Chabrol constrói um thriller erótico solar, ambientado em uma Saint-Tropez que aparece inicialmente como um conto de fadas burguês, no qual a paisagem costeira, a arquitetura, os carros, as roupas e os interiores compõem um mundo de encantos próprios. É através dessa atmosfera de joie de vivre como raison d’être que Why (Jacqueline Sassard), uma jovem de origem inferior, é progressivamente absorvida por um universo que lhe era estranho. A montagem livre acompanha essa sedução, permitindo que a personagem seja engolida tanto pelos encantos naturais da cidade quanto pela materialidade de uma classe que parece existir sob regras próprias (a cena do pôquer é exemplar nesse sentido, apresentando aquele modo de vida como um espetáculo fascinante diante do qual Why).
A sedução de Why não se encerra na assimilação de um modo de vida. Ela é também incorporada como objeto dentro das relações de poder daquele mundo, primeiro por Frédérique (Stéphane Audran) e depois pelo próprio jogo erótico que a cerca. O pacto de abertura aos encantos masculinos funciona como a perda de sua inocência e como a entrada definitiva em uma estrutura da qual ela ainda não compreende as regras. Chabrol transforma esse movimento em matéria de thriller ao fazer com que a personagem seja manipulada como um brinquedo, utilizada e descartada conforme as necessidades de Frédérique. O erotismo não aparece simplesmente como expressão de desejo, mas como uma força capaz de reorganizar posições sociais e identidades, fazendo da intimidade o próprio campo em que uma personagem pode ser assimilada, moldada e posteriormente substituída.
Gradualmente, a mise-en-scène começa a se contaminar pelo desejo de fusão entre as duas mulheres. O jogo de espelhos no apartamento de Frédérique já prenuncia essa relação, mas o que se torna cada vez mais evidente é a maneira como Chabrol passa a dispor os corpos e os rostos dentro do quadro como se estivessem magneticamente atraídos uns pelos outros. Cada aproximação, cada toque e cada mudança de posição parecem carregar uma possibilidade de osmose, como se a fronteira entre uma personagem e outra fosse progressivamente desaparecendo. O thriller erótico encontra então sua dimensão mais perturbadora não no que acontece entre os corpos, mas na transformação que o desejo produz sobre eles. Desejar o Outro começa a significar incorporar o Outro.
Essa metamorfose ganha uma materialidade decisiva quando o filme passa a evidenciar, através do figurino, da maquiagem e do cabelo, a transformação de Why em uma espécie de imagem de Frédérique. O que antes era sugerido pela composição dos quadros passa a ser inscrito diretamente sobre o corpo. Há algo de Um Corpo que Cai (Hitchcock, 1958) nesse processo de fabricação de um duplo a partir do desejo, mas Chabrol antecipa também uma linhagem que passaria por Quando Duas Mulheres Pecam (Bergman, 1966), pelo cinema de Rivette e, décadas depois, por Cidade dos Sonhos (Mulholland Drive), na qual a relação entre duas mulheres deixa de ser apenas uma relação de desejo para se tornar uma crise de identidade, em que uma começa a ocupar a imagem da outra. Chabrol chega a esse território por meio do thriller erótico, fazendo com que a aproximação entre os corpos produza progressivamente uma indistinção entre quem deseja, quem é desejada e quem está sendo transformada. Os rostos se aproximam, os corpos se confundem, os espaços deixam de pertencer exclusivamente a uma ou outra e, por fim, a própria aparência de Why passa a carregar os sinais da mulher que a criou.
Frédérique acredita estar moldando Why como quem trabalha artesanalmente uma matéria bruta, sem perceber que está produzindo o próprio instrumento de sua destruição. A personagem da classe inferior que entra naquele mundo como objeto de fascínio e manipulação acaba assimilando seus códigos com tamanha precisão que pode ocupar o lugar de quem os impôs. Why é uma espécie de criatura de Frankenstein construída pela burguesia para seu próprio prazer, lapidada até se tornar semelhante à sua criadora e, finalmente, capaz de substituí-la. O que parecia ser uma relação de sedução transforma-se assim em um processo de anulação do Ser pela imagem do Outro. O erotismo produz a metamorfose, a metamorfose produz o duplo e o duplo, levado ao extremo, produz a substituição.
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