Religiosidade e Fé Cristã: A Complexidade do Cristianismo no Cinema
Toda arte tem sua origem na religião e no ritual. No caso da representação ocidental conforme hoje conhecemos, o Cristianismo imprimiu uma marca indelével, não somente por moldar a sensibilidade e o conhecimento de mundo de todos nós, mas por enformar e informar a própria maneira de contar histórias, representar, organizar um enredo, como mostraram alguns teóricos da narrativa tais quais Erich Auerbach, Northrop Frye, Frank Kermode, René Girard. No desenvolvimento do cinema, as religiões cristãs não se fazem menos fundamentais. André Bazin, ponto de inflexão na teoria e crítica de cinema, derivou muito de sua teoria sobre o realismo na representação fílmica a partir das noções de imagem, ideia, substância, imitatio, conforme eram conhecidas pela filosofia medieval e Escolástica e que dependem de como nós, seres criados, olhamos para o mundo enquanto a obra de arte de Deus e encaramos o mistério da Encarnação.
Nesta Semana Santa, semana maior para todos os cristãos e em que sentimos nas próprias manifestações públicas da fé no Brasil a força catártica das representações da Paixão, separamos sete filmes para que você possa perceber como uma boa história de fé e contato com seus mistérios pode mudar nossa maneira de encarar o mundo, além de perceber como o Cristianismo conferiu representações únicas ao cinema. Você assistirá a verdadeiros milagres operados em tela. São eles frutos de uma mise-en-scène jansenista ou pelagiana, como separava Bazin? Contemplam o martírio ou a glória, exultam no simples ou no barroco, manifestam uma espiritualidade católica ou protestante? Descubra a seguir.

O Testamento de Deus
Um representante muito único e especial dos forties americanos e do estilo de vida protestante americano buscando uma resposta predestinada do alto, uma intervenção absoluta, oposta da experiência tonal da presença divina no mistério do cotidiano e nas ritualizações dos gestos que temos na espiritualidade católica de Rosselini e Bresson. Assim como no filme deste último, um pregador doa-se em sacrifício por sua comunidade, combatendo a indiferença, a individualização da fé e o próprio ceticismo causado pelo triunfo da razão, em favor de uma vivência de igreja. Seu prêmio imprevisível não é a coroa dos mártires como a do santo bressoniano, mas a coroa do galardão de conseguir a conversão de alma por alma ainda em vida.

Francisco, Arauto de Deus
Como seria a mística franciscana se pudesse ser retratada de dentro, de sua própria cosmologia, de seu próprio “castelo interior”, como diz Santa Teresa D’Ávila? O que obtemos é isto: um filme que não é uma biografia de São Francisco de Assis, mas um sonho de 80 minutos passados na mente e no coração dos seguidores de Francisco; uma pequena piada infantil que só poderá ser compreendida por aquele que tiver esse caráter da inocência de quem está na eterna infância do mundo, sempre a descobrir algo novo. Rosselini filma o Céu, o Paraíso, a Feéria, sem nunca sair, exteriormente, para os espíritos incautos, do mais trivial da pobreza monástica. A própria definição de transcendência.

Diário de um Pároco de Aldeia
A abordagem minimalista de Bresson, tratando do ordinário e do trivial pelos olhos de um jovem padre enfermo, um olhar passivo que vem dos olhos de um homem espiritualmente tumultuado. Um conflito moral interno em relação a suas próprias crenças, que vai de encontro com uma monotonia ambígua dos acontecimentos que cercam a vida do padre, uma abordagem que enfatiza a trivialidade do que se pode considerar sagrado, um questionamento que detém suas raízes narrativas em um minimalismo cinematográfico.

A Tortura do Silêncio
A Confissão é, na Igreja Católica, uma das expressões máximas da misericórdia de Deus. No filme de Hitchcock, um homem chega à igreja no momento mais escuro do desespero humano, próximo da meia-noite, para confessar um assassinato ao padre interpretado por Montgomery Clift. O padre não pode revelar a ninguém o segredo de confissão, mas o homem não está interessado no arrependimento: valendo-se disso, explora sua consciência e juramento, por ser o único que sabe, para fazê-lo levar a culpa em seu lugar. Hitchcock leva-nos em um romance policial cuja perseguição transforma-se em uma via crucis e seu clássico modelo da vítima inocente transforma-se no próprio Cristo injustiçado pelos pecados do mundo que só Ele conhece em sua carne.

A Palavra
Uma epítome de todas as parábolas dos Evangelhos no modelo do humilhado, do louco, para questionar a incredulidade e a pobreza espiritual da modernidade em meio à boa ambientação do teatro psicológico do século XIX, com o mesmo enfoque na “palavra” – agora feita cinema. Na vivência de duas famílias pertencentes a diferentes ramos do Cristianismo, prestes a se unir pelo amor malquisto de seus caçulas, o filho Johannes, agindo como Jesus e alertando a respeito da tragédia que se abaterá sobre todos, é tido como louco. A esposa de seu irmão Mikkel, ateu, sofre complicações na gravidez. O milagre acontecerá da maneira mais singela, pelo mesmo “Fiat” da Palavra criadora – mais, do Verbo que se fez carne.

O Pagador de Promessas
O único filme brasileiro vencedor da Palma de Ouro, a grande obra de Anselmo Duarte traça um conto que lida com uma ilustração um tanto realista da sociedade brasileira não apenas nos anos 60, mas também da história do país como um todo até os dias de hoje. A odisseia de um homem comum em busca de provar sua própria fé, enfrentando a intolerância de uma instituição marcada por líderes inflexíveis, que se diz portadora da vontade de Deus perante seus fiéis, juntamente do oportunismo que a sociedade capitalista impõe sobre sua vontade para sua promessa destinada à Santa Bárbara, ou até mesmo para Iansã.

O Evangelho Segundo São Mateus
O drama bíblico de Pasolini busca nas parábolas e nos ensinamentos de Jesus refletir sua natureza revolucionária, sendo o messias do cristianismo representado como um homem em sua verdadeira essência. A ausência de características épicas e a narrativa completamente fiel aos escritos da Bíblia, juntamente do discurso marxista proposto pelo diretor, transformam o longa na maior obra cinematográfica já realizada sobre a viagem de Jesus pelo mar da Galiléia, sendo sua jornada marcada pelos seus levantes contra as injustiças sociais que o rodeiam, nos quais sua voz é sua marca contra aqueles que oprimem as classes discriminadas.