Brucutus Anos 80: Filmes de Ação com Homens Suados
Brucutu é uma palavra sem origem definida mas com um dos significados principais sendo para definir um homem grosseiro, brutamontes, hipermasculino. Não é surpreendente que também seja a tradução em português de um quadrinho francês (Alley Oop) cujo protagonista é um “homem das cavernas” grandão que prefere a companhia de dinossauros do que de humanos. Esse foi talvez o principal estereótipo do herói de ação das décadas de 1980-90, mas também está presente em outros gêneros, como faroeste e ficção científica.
Os valentões também representavam um ideal hétero cis de masculinidade tóxica que até hoje é almejado, mesmo que bem ridículo, baseado na força bruta, em esconder emoções e tratar a mulher como objeto de desejo e/ou como uma donzela a ser protegida. Os heróis também eram lobos solitários e defensores da família, com muitas das tramas dos filmes sendo em torno de vingança ou resgate.
Por outro lado a hipermasculinidade desses filmes desemboca também em um olhar homoerótico e homoafetivo, visto que os corpos musculosos e definidos são sempre filmados em closes, câmera lenta, sem roupa e besuntados de óleo, água ou suor, além das conexões emocionais serem normalmente com outros homens. Nesta lista trouxemos apenas filmes dos anos 80 representativos do gênero, com mensagens duvidosas, nudez, lutas, explosões e muita diversão.

Fuga de Nova York
Neste universo distópico a ilha de Manhattan foi transformada em uma prisão de segurança máxima a céu aberto. Snake, interpretado por Kurt Russell, é um veterano de guerra fortão, que usa jaqueta de couro, tapa-olho e mullet. Ele precisa sobreviver aos criminosos perigosos de Manhattan, em uma corrida contra o tempo para salvar ninguém menos que o presidente dos EUA. A ambientação soturna e decadente da cidade, juntamente com as cenas de ação, que exaltam os músculos do protagonista e a enorme arma que ele carrega, trazem ao filme um ar descolado que só era possível nos anos 80.

Invasão dos EUA
Um terrorista russo planeja um ataque aos EUA, mas antes precisa lidar com seu nêmesis: um agente da CIA aposentado. A própria premissa já demonstra que é um filme que não tem interesse em complexidade narrativa ou em coerência dramática. Joseph Zito quer apenas uma coisa: uma desculpa para colocar em tela Chuck Norris trocando porrada. Nada no filme tem muito sentido, e nem precisa. Sua função é apenas abrir espaço para a performance física e iconoclasta do astro, encarnando de forma direta e descomplicada o arquétipo do cinema brucutu com um de seus maiores nomes. Diversão imediata, espetáculo de ação em estado bruto.

Comando para Matar
Arnold Schwarzenegger é John Matrix, viúvo e ex-militar das Forças Especiais que largou o Exército para ver a filha crescer. Porém, sua paz é abalada pelo ex-ditador de Val Verde, deposto por Matrix, que sequestra a menina e exige que o ex-coronel reverta a situação política do país, matando o atual presidente. Em uma narrativa comum a este tipo de filme, John é o “exército de um homem só” e iniciará uma campanha de fuga, matança e vingança para recuperar a filha, contando com a ajuda de uma aeromoça. A apresentação do protagonista é curiosa; vemos os músculos antes do rosto e, quando o plano abre, ele está segurando um enorme tronco de árvore com um braço só.

Stallone: Cobra
Cobra é o pseudônimo do policial machão Marion Cobretti, interpretado por Stallone. Ele usa jaqueta de couro, óculos aviador, e tem o desenho de uma cobra no punho de sua arma — que, obviamente, fica enfiada no cós de sua calça jeans colada, para que o espectador não tenha dúvidas do que a pistola representa. Os criminosos da vez fazem parte de um culto de assassinos em série, cuja vítima (da vez) é uma bela modelo que foi testemunha de um desses assassinatos. Cobra usa seus métodos questionáveis para lidar com o crime em cenas de ação eletrizantes, e ainda tem tempo de flertar com a moça que precisa proteger.

O Grande Dragão Branco
Baseado na vida de Frank Dux, que segundo ele conta, foi treinado como ninja por um mestre japonês e participou de um torneio de luta secreto no sul da Ásia chamado Kumite, o longa conta com Jean Claude Van Damme interpretando o lutador. Antes dos combates tem a costumeira sequência de treinamento e motivações do passado do protagonista, mas o filme não demora muito para dar início ao sangrento torneio, que conta com participantes de diversos países. A câmera explora o corpo do protagonista de todas as maneiras, seja nos movimentos de luta ou para ressaltar as formas e músculos, mostrando tanto a hipermasculinidade quanto a objetificação dentro do gênero.

Duro de Matar
Depois de lançar O Predador (1987), filme que subvertia as expectativas dentro da “ação brucutu”, McTiernan desconstrói outras características desse subgênero com John McClane, seu novo protagonista. Em véspera de Natal, o detetive nova-iorquino viaja a Los Angeles para tentar se reconciliar com a esposa. Ao visitá-la no prédio em que trabalha, McClane acaba no meio de um ataque terrorista e usa sua vantagem no terraço do prédio para acabar com cada membro do grupo inimigo e salvar sua amada. O protagonista aqui está longe de ser indestrutível e usa de inteligência e sagacidade para sobreviver a ferimentos graves. A força bruta não é a maior arma desse brucutu.

Matador de Aluguel
O segurança James Dalton é notório em Nova York por ter matado um homem, em autodefesa, arrancando a garganta dele com as mãos. Para lidar melhor com a culpa, ele aceita um trabalho no Missouri, porém sua fama o precede. Com isso, Dalton consegue controle total da gerência do local e está determinado a livrar o local de trambiqueiros, arruaceiros e criminosos. A trama se diferencia de outros do gênero por não envolver lutadores profissionais, militares ou policiais, mas ainda assim não foge de clichês como protagonista estoico e protetor, violência física com muito sangue, explosões e tesão. Além disso, o desenvolvimento de personagem é mais aprofundado do que o de costume.