No lançamento de Os Mercenários (Stallone, 2010), já havia ficado muito clara a intenção por trás dessa nova franquia liderada por Sylvester Stallone: ressuscitar a ação “brucutu” que se popularizou nos anos 1980 e adaptá-la ao século XXI, uma época dominada por espiões que usavam de inteligência acima da força física para enfrentar conspirações terroristas (Jack Bauer, Jason Bourne, Ethan Hunt, entre outros). Porém, aquele filme demonstrava uma abordagem que, mesmo nem sempre bem sucedida, dava um charme a mais a esse projeto que reunia várias estrelas veteranas daquele período: a auto-consciência e a sátira.
Dando o melhor em seu carismático segundo capítulo lançado em 2012 e caindo em uma repetitividade apática no fraco terceiro filme de 2014, fato é que Os Mercenários se mostrou uma franquia de curta validade, já que seus ícones nostálgicos apenas envelheceriam ainda mais ao longo dos anos, o que impossibilitaria uma consolidação longeva. E é por isso que Os Mercenários 4, mesmo que mantendo sua abordagem repetitiva e sem muita inventividade, me surpreendeu justamente por desapegar desse elemento nostálgico, mantendo a personalidade “brucutu” e a auto-paródia mesmo com atores de gerações mais recentes, enquanto os ainda permanentes Stallone e Dolph Lundgren surgem em participações bem menores do que nos outros capítulos.
Como protagonista de uma trama rasa que lembra a de um videogame dos anos 1980 (ao estilo do “vá para tal lugar e impeça tal coisa”), Jason Statham agora dá uma nova face à franquia; afinal, diferente do Barney Ross de Stallone, seu Lee Christmas é um especialista em facas. E devo admitir que a melhor característica da direção do medíocre Scott Waugh é a incorporação das habilidades de seu novo protagonista ao estilo de ação predominante do longa, uma ação mais direta e corporal.
Por sinal, essa nova face serve também como uma modernização da franquia em um cenário dominado por obras como John Wick (Stahelski, 2014), Atômica (Leitch, 2017) e Anônimo (Naishuller, 2021). Não é à toa que, diferente dos explosivos Chuck Norris, Arnold Schwarzenegger, Bruce Willis e Wesley Snipes, temos aqui nomes grandes do cinema oriental de artes marciais como Iko Uwais (do jovem clássico Operação Invasão) e Tony Jaa (de Ong-Bak). Junto a isso, Waugh também controla o estilo caótico de direção de seus antecessores da franquia, permitindo ao espectador acompanhar mais detalhadamente os golpes e as posições de seus astros, algo sempre importante para a valorização do elemento central da obra, a ação.
O problema é que alguns equívocos dos filmes anteriores surgem aumentados aqui, e é triste ver Megan Fox, em um estágio bem mais avançado de sua carreira, ocupando o mesmo papel de protagonista de rostinho bonito ao qual era relegada há mais de 10 anos atrás na franquia Transformers (Bay, 2007) mesmo quando sua personagem exigia uma participação mais substancial. O mesmo vale para Levy Tran que, a julgar pelas suas habilidades, merecia tanto destaque quanto o vilão vivido por Uwais. Além disso, o desfecho do longa, mesmo que respeitando a natureza absurda e sem noção dos “brucutus”, soa apressado e preguiçoso, transmitindo a sensação de algo incompleto, que ainda precisava atingir seu ápice, algo anticlimático.
Porém, sendo bem sincero, não concordo com a recepção tão negativa de alguns colegas ao filme. Sim, podemos dizer que Os Mercenários 4 é medíocre e acomodado no padrão estabelecido por tantos outros projetos de ação contemporâneos, mas ainda acho uma melhora em relação ao filme anterior e uma modernização bem-vinda à série “brucutu” que antes se sustentava mais por puro idealismo do passado. Dito isso, sinceramente eu não sei se Os Mercenários terá futuro a partir daqui. Veremos!