O TEXTO A SEGUIR PODE CONTER SPOILERS!!!
Ao começar Serra das Almas, novo filme de ficção de Lírio Ferreira, uma suspeita me veio à mente sobre o resto da obra. Em uma cena caótica na qual duas mulheres e um homem são pegos como reféns em uma van por dois bandidos desbocados e mal encarados, enquanto a edição cria uma estética semelhante a de um videoclipe dos anos 2000, as aparências indicavam que eu estava voltando para o cinema da Retomada (movimento brasileiro situado na virada do milênio). Tudo era muito maniqueísta, até meio caricato, e Ferreira parecia querer ganhar a reação do público pelo choque formal e por uma linguagem próxima à de um filme de ação hollywoodiano.
Conforme a narrativa ia se desenvolvendo, dessa vez em um terreno no qual tais bandidos esperam mais instruções sobre seu serviço, fui percebendo uma tentativa de desconstruir aquele tipo de cinema tão popularizado na Retomada. Afinal, o foco aqui não é o caos terceiro-mundista que se tornava apenas estilo, como apontava Ivana Bentes em seu texto sobre a “cosmética da fome” (cuja ideia expandiu neste texto aqui). Ferreira, pouco a pouco, começa a tratar sobre o psicológico dos reféns e dos sequestradores de maneira praticamente igualitária, com um foco até maior nos criminosos. O diretor transforma esses grandes vilões unidimensionais das primeiras cenas em figuras extremamente complexas, que fogem da caricatura dos monstros sem alma, mesmo sem perder o senso de ameaça que transmitem aos reféns e ao público.
Somado a isso, há também toda uma discussão geográfica e de classes que alcança, justamente, a ambiguidade do título. Serra das Almas não é apenas o nome daquela região do interior do nordeste brasileiro, mas sim uma referência às experiências sobrenaturais que os personagens (especialmente aquele vivido com intensidade por David Santos) vivenciam naquele local, um sintoma de uma vida cheia de contradições, conflitos e culpa. Uma pena também que esse lado espiritual e espectral do filme jamais seja explorado com devida atenção.
E é aí que entramos na fonte da minha maior decepção com o longa de Lírio Ferreira. Se no núcleo do presente o diretor parece desconstruir aquele maniqueísmo “americanizado” da Retomada, acaba por retomar (com o perdão do trocadilho) justamente a isso nos numerosos flashbacks que, sem muito motivo de existir, parecem estar ali apenas como um desenho da trama antecedente àquele sequestro; um desenho quase esboçado de tão simplista. Por vezes, parece até mesmo uma paródia de Tropa de Elite 2 (Padilha, 2010) misturado a algum filme policial genérico dos anos 2000 lançado direto para home video. Um grande desperdício de Bruno Garcia, por sinal.
Ao final do filme, não pude deixar de pensar como era um projeto em crise de identidade patente, como tinha tudo para ser um drama intenso e profundo sobre os conflitos de classe e o ciclo de violência – muitas vezes lembrando até uma versão mais fraca das obras de Erico Rassi –, mas acaba fazendo essa ideia morrer na praia ao tentar puxar referências de vários outros tipos de cinema para se tornar, talvez, mais comercial. Uma pena, visto que poderia ter sido mais um ótimo exemplar dessa nova tendência de faroestes revisionistas à brasileira.