Cinema é uma arte cara. Mesmo que possa ser realizada sob condições precárias e ainda gerar ótimos projetos, o cinema mainstream de forma geral, especialmente os grandes blockbusters hollywoodianos, depende de muita grana para sair do papel. E eu sempre fico embasbacado com projetos que conseguem ser produzidos mas, ainda assim, não parecem ter o menor interesse ou esforço para trabalhar com o que o audiovisual oferece de possibilidades de encenação, uma oportunidade completamente desperdiçada de fazer dinheiro com um mínimo de criatividade.
O Corvo é um dos maiores exemplos recentes dessa burocracia da indústria. Dirigido por Rupert Sanders, cineasta que aparentemente só assume essas reimaginações sem personalidade, o novo filme segue a ideia geral da história concebida para as HQs por James O’Barr e que já havia sido adaptada mais celebremente pela versão de 1994, que culminou na triste morte do ator Brandon Lee (a qual não assisti e, portanto, não será muito citada por aqui). Temos, então, uma trama que despende boa parte de sua duração na relação dos dois desajustados Eric Draven (Bill Skarsgård) e Shelly Webster (FKA Twigs) até, de fato, entrar no arco que dá título à obra.
Claro que, em mãos mais habilidosas e sensíveis, esse tempo focado na relação de ambos poderia potencializar o sentimento dos dois e a sua transmissão ao público, nos incluindo em sua paixão e, consequentemente, fazendo com que nós nos invistamos ainda mais na jornada de vingança do rapaz em seu pós-morte superpoderoso. (Lembrando: nada disso é spoiler. Trata-se da premissa básica do longa que está presente no material promocional). Porém, não é isso que acontece, já que a direção de Sanders parece querer se distanciar cada vez mais dos sentimentos genuínos de seus personagens, se empolgando um pouquinho mais apenas nos momentos em que pode explorar mais o corpo sensual de Twigs.
Até mesmo quando começa a se assumir como uma fantasia, o longa parece não se interessar pelo Draven de Skarsgård ou por sua jornada. Nada aqui tem imaginação, desde o mundo após a morte concebido como uma estação de trem com objetos flutuantes em um visual chapado e realista, até a abordagem dos poderes do vilão encarnado por Danny Huston que mal ficam claros de tão negligente que é a forma como Sanders trata os antagonistas. Não que precisasse ser algo profundo, mas pelo menos algo que demonstrasse alguma ameaça para além de frases de efeito e olhares antipáticos.
O único momento que Sanders parece querer ao menos divertir com seu filme é a cena de ação na parte final, a qual ocorre na recepção de um teatro — que muito provavelmente está no filme porque a distribuição precisava de algum movimento para inserir no trailer de divulgação. É o momento que a direção parece finalmente querer aproveitar os poderes de seu personagem em prol da ação mais brutal, que ainda ganha um contorno cômico com a montagem que alterna a porradaria com o balé encenado no estabelecimento.
Saindo dessa cena aos moldes de John Wick (Stahelski, 2014), O Corvo de 2024 conclui seu arco de forma que seria extremamente emocional no mundo ideal, mas que, na execução, acaba por apenas provocar frustração e apatia. Um desfecho digno, considerando que todo o filme parece conspirar para que seu mundo seja nada mais do que um grande vazio de sentido, de carisma, de fantasia, de criatividade… e de cinema.