Em 1998, com a bênção de Kiyoshi Kurosawa, Takashi Shimizu produziu os curtas Katasumi e 4444444444 para o filme antológico Gakkō no Kaidan G. Além de agradar a Kurosawa, esses curtas mostraram ao Japão os talentos de Shimizu. Essa atenção o uniu ao produtor de Ring: O Chamado (Nakata, 1998), Takashige Ichise, para ampliar os projetos a um longa-metragem lançado diretamente para vídeo. Assim, em 2000, vem a público Ju-on: The Curse.
As ideias-base do filme já estavam estabelecidas nos curtas. Katasumi acompanha Hisayo e Kanna, duas estudantes que somem quando vão alimentar os coelhos da escola. 4444444444, por sua vez, é ainda mais simples e conta a história de um homem que encontra um telefone celular na rua com uma ligação do mesmo número que dá nome à produção e é surpreendido com um repetido miado de gato. O primeiro apresentava a protagonista Kayako, com uma tentativa do diretor em gerar ansiedade no espectador usando uma movimentação de câmera caótica — algo que não iria se repetir nos longas-metragens. No segundo, o personagem Toshio era brevemente introduzido, junto ao miado do gato Mar e às propostas formais que se assemelham ao que seria construído nos anos seguintes, apesar de o susto final ser não intencionalmente hilário.
Os curtas-metragens não são reencenados na obra de 2000, porém voltamos a ver os personagens que lá aparecem e acompanhamos os antecedentes e consequências de Katasumi e 4444444444. O foco é estabelecer a mitologia, o estilo visual e a estrutura do enredo que seriam explorados por Shimizu nos seus quatro longas — e que serviram de inspiração para as versões estadunidenses e sequências que vieram após a saída do diretor. Por isso, a obra é dividida em segmentos e não linear, como se tornou tradição da franquia, sendo aqui composta de seis trechos, com o nome do personagem que cada um enfoca: Toshio, Yuki, Mizuho, Kanna, Kayako e Kyoko.
Como disse antes, a história de Ju-on: The Curse não é linear e, por isso, é difícil apresentar uma base do enredo para quem nunca assistiu a ele sem resumir toda a trama. Pode-se colocar como ponto de partida a própria história dos fantasmas — a qual, apesar de ser contada com o passar do filme e representada apenas em outros longas, é uma informação essencial para discorrer sobre ele e as sequências, visto que explica todo o substrato da franquia. Assim, Ju-on: The Curse conta a história da família Saeki, composta pelo casal Takeo e Kayako, seu filho Toshio e o felino Mar. Após Takeo ficar paranoico com um suposto caso extraconjugal de sua esposa, ele assassina brutalmente a família, condenando-os eternamente a se tornarem onryō — os fantasmas “vingativos” do folclore japonês, que já explorei em outro texto — e darem fim à vida de todos que adentram na casa dos Saeki, agora com uma aparência branca e com alguns ferimentos que permanecem da forma pela qual morreram. Nesse cenário, o presente filme começa com o professor Kobayashi investigando a razão pela qual um de seus alunos, Toshio, não comparece mais às aulas.
Ainda no campo da sinopse e da mitologia, a obra abre com um parágrafo que, de maneira intencionalmente vaga, explica um pouco da maldição e conecta o termo “Ju-on” com o folclore japonês. O texto diz o seguinte: “Ju-on: uma maldição que nasce quando uma pessoa morre em um acesso de fúria. Ela se acumula onde a pessoa morta vivia e se torna uma ‘mancha’. Qualquer um que a toca morre, e uma nova maldição surge”.
Já discorri aqui sobre o cinema japonês de terror de forma geral e sobre as inspirações da franquia, então, para comentários mais aprofundados sobre temas específicos que abrangem a série como um todo, recomendo a leitura desses dois textos, que complementam esta crítica, na qual adentro mais nos aspectos cinematográficos restritos ao primeiro Ju-on.
O longa de 2000 cria um estilo que baseia toda a estética da série. O visual busca um naturalismo que valoriza um posicionamento de câmera geralmente fixo; uma iluminação mais intensa que o comum do terror, porém não o suficiente para criar um senso de artificial; e uma importância exacerbada aos ambientes e à interação destes com os personagens. A casa é parte essencial do enredo e, sabendo disso, o diretor faz o espectador se situar de maneira efetiva, a ponto de conhecê-la como se fosse um local que visitou, especialmente por meio da amplitude dos enquadramentos e da clareza com que a residência é vista — aspecto que acompanha, de maneira mais limitada, os outros cenários também.

Essas características dão à obra um caráter muito palpável e concreto, o que nos convida a sermos parte daquela realidade. Desse modo, alimenta-se em quem assiste um receio existencial fundado na fragilidade do ser humano perante o imaterial — aqui representado pelos onryō, seres implacáveis e presentes em todos os locais, e que não precisam de motivação racional para atacar. Portanto, em vez de um mero resultado da relação emocional com os personagens, é um medo muito maior: da razão — algo que o ser humano aprendeu tanto a valorizar — sucumbir ao irracional, que é, no fim das contas, a natureza do sobrenatural.
Junto desse naturalismo visual, o ritmo da narrativa se articula com o trabalho de som para fazer o espectador adentrar nesse mundo um passo de cada vez. Não é um filme que se apressa para mostrar seus monstros, seus sustos ou as capacidades técnicas da direção. É um longa que entende que o exagero só tem potência quando serve de oposto à sua ausência. Por isso, a narrativa é calma, aproximando-se, em vários trechos, das filmagens fixas e despreocupadas de objetos e momentos aparentemente irrelevantes feitas por Yasujirō Ozu. Essa tranquilidade é acompanhada de uma trilha sonora presente em poucas oportunidades, intercalada com sons não-musicais quase constantes. Tal característica afasta esta obra de outras do terror na medida em que uma ferramenta comum do gênero é trabalhar com a alternância abrupta do silêncio completo para um som alto. Ju-on: The Curse não faz isso, posto que o silêncio não é quebrado pelo susto, e sim por sons aparentemente banais. Pássaros, insetos, carros distantes, vento, objetos sendo manipulados, respirações, enfim. Até há momentos cujo áudio é mais acentuado e cuja trilha sonora aparece com melodias tensas; todavia, os sons mais marcantes são aqueles que parecem diminutos em uma primeira impressão e acabam tomando, no filme, uma dimensão maior por sua interação com o silêncio — como ocorre com os sons de corpos se movendo, de vozes guturais e do impacto da batida entre um corpo e um objeto artificial que rompem com a quietude da noite.
A simplicidade visual e o minimalismo auditivo, porém, não retiram a intensidade do horror do filme. Quando ele se propõe a ser assustador, faz de maneira magistral. O caráter naturalmente desconfortável da trama é imensamente amplificado pelos aspectos visuais e auditivos que comentei, retirando a necessidade de uma violência gráfica reiterada. Assim, acontecimentos mais brutais não são frequentes; a direção se contenta com uma atmosfera de incômodo constante cuja intensidade varia. Ao longo do tempo em que o diretor incessantemente condena o espectador a ficar sozinho, ouvindo conversas banais ou sons da natureza e da cidade, cresce uma angústia. Tal sentimento vem porque, no decorrer da narrativa, fica evidente que toda aquela construção é meramente um caminho para um fim determinado e, consequentemente, o suspense mais tradicional é substituído pela asfixia crescente da espera por uma tragédia predestinada.
Esses trechos de baixa intensidade são alternados com partes que vão pelo caminho contrário. Quando o terror chega, ele é desesperador. Mesmo que o filme prepare sucessivamente o espectador, quando há, de fato, a ruptura com a ordem estabelecida, não há como estar preparado para os acontecimentos mostrados — ainda que frequentemente, pelo baixo orçamento, essas representações sejam modestas. No segmento de Kayako, quando a obra se dedica a mostrar uma parte da violência de Takeo que deu origem à maldição, nasce um dos momentos mais marcantes da história do cinema de terror, com alguns dos melhores usos de violência gráfica, de sangue, da distorção do corpo e de efeitos sonoros que já tive a oportunidade de assistir. É dessas cenas que assombram até aqueles pouco impressionáveis, posicionada de maneira genial perto do fim do longa, quando já estamos completamente imersos naquele universo simultaneamente fascinante e cruel.
Com isso, o sentimento geral que Ju-on: The Curse causa é de desesperança, aspecto que será amplificado com o passar do tempo, até chegar ao seu ápice em Ju-on: O Grito. Como mencionei no ensaio sobre as inspirações de Ju-on, há um universo de artefatos culturais, de lendas folclóricas e de fatores sociais que geraram o medo e o fatalismo aqui retratado. A arte, afinal, é sempre um relato de seu tempo; e esta franquia é um conto de um Japão que tenta buscar racionalidade em uma modernidade irracional, enquanto vê suas tradições ruírem pela violência generalizada. Pretendo comentar futuramente também sobre como o mal em Ju-on não vem exatamente da corrupção do mundo, e sim é tido como parte natural dele; uma faceta da realidade com a qual a sociedade não está pronta para lidar. No entanto, essa discussão é mais frutífera quando avaliada dentro de outras obras, especialmente o reboot de 2014 e sua continuação, além da série de 2020 O Grito: Origens.
Este primeiro Ju-on, apesar de ainda não adentrar em toda a ideia da franquia, constrói uma fundação estética e temática espetacular. É uma produção modesta, com um enredo simples e com atuações bastante naturais — fatores que refletem o orçamento reduzido e o fato de ele e sua continuação terem sido filmados conjuntamente em apenas nove dias. Essa falta de recursos não diminuiu o seu impacto cultural, iniciando uma história que ganha novos capítulos e reimaginações até hoje e ajudou a moldar o cinema de terror contemporâneo. O longa de 2000 foi o principal responsável pelo início de um projeto em que Takashi Shimizu, Kiyoshi Kurosawa e o roteirista de Ring: O Chamado, Hiroshi Takahashi, se juntaram para viabilizar um filme lançado para os cinemas. Esse esforço iria se concretizar com Ju-on: O Grito, em 2002, que consolidou a franquia e a mostrou ao mundo, sendo, até hoje, um dos filmes de terror mais importantes da história. Afinal, tudo começou aqui, com o primeiro Ju-on: The Curse e seu próximo capítulo, que foi lançado no mesmo ano.