Marsupilami é um personagem de histórias em quadrinhos belga que faz parte do enorme legado do país nesta modalidade artística, mas que não atravessou tantas fronteiras quanto outros contemporâneos, como Asterix e Obelix ou Smurfs; ou anteriores como Tintim ou Babar, apesar de muito popular em sua nação. Criado em 1952 por André Franquin, dentro da série Spirou e Fantásio, o personagem é um animal amarelo com bolinhas pretas e uma cauda enorme, natural das florestas tropicais do país Palombie, na América do Sul. O nome vem da junção da palavra “marsupial”, com Pilou-Pilou (nome francês do personagem de Popeye que no original é Eugene, o Jeep) e a palavra “ami” (“amigo” em francês).

Houveram poucas adaptações dos quadrinhos para o audiovisual, com três séries animadas, sendo uma feita em coprodução com a Disney nos anos 1990, algumas animações lançadas em vídeo e um live action de 2012. Na Pista do Marsupilami  (Chabat, 2012) serve como uma prequel deste mais novo filme com o personagem: Marsupilami: Confusão a Bordo. Desta vez, Pablito Camaron (Jamel Debbouze) volta para não permitir que o ovo de marsupilami caia em mãos erradas, mas acaba envolvido em uma confusão envolvendo traficantes de animais.

O longa dirigido e estrelado por Philippe Lacheau, porém, acompanha um pai ausente que para não perder o emprego depois de uma noite alucinada concorda em trazer um pacote misterioso da América do Sul para o dono do zoológico (interpretado por Jean Reno). Eis que, para isso, ele usa um colega de trabalho bobalhão como mula em um cruzeiro, onde também estão o filho e a ex-namorada (e mãe da criança), além de outros intrépidos personagens. Pablito também consegue entrar no navio clandestinamente para salvar o Marsupilami que é o conteúdo do tal pacote. A partir daí o cenário está montado para as situações inusitadas, que já eram extremamente absurdas, escalarem cada vez mais em um despautério sem limites.

Marsupilami

O Marsupilami, porém, não é tão presente quanto o nome sugere, especialmente para ser o agente do caos criando situações malucas ou desconfortáveis que geram humor. O animal é apenas um bicho de estimação fofo na maior parte do tempo — o que é curioso, visto que o design original não é particularmente fofo e a adaptação cinematográfica pende um pouco para o vale da estranheza — exceto na sequência de ação final, em que ele demonstra toda a sua força descomunal em uma luta com várias referências a Dragon Ball.

O detalhe bizarro, entretanto, é que o filme que eu imaginei que seria da categoria “para toda a família”, tem boa parte do humor dependente de piadas sexuais, racistas ou preconceituosas, além de violência descabida. Alguns exemplos são: a sugestão de uso de viagra para evitar que coxas encostem no colchão e posteriormente deixam o rabo do Marsupilami rígido e também o tratamento do Pablito (personagem latino) como se ele fosse literalmente um animal, além de um policial o espancando gratuitamente para sair bem numa gravação de vídeo. É impressionante como quase todas as piadas no diálogos e muitas das gags visuais tem algo “para adultos”, às vezes até no bom sentido, como referências a filmes como Titanic (Cameron, 1997), E.T. (Spielberg, 1982) ou mesmo o já citado anime; mas, na maior parte das vezes, é só um “humor errado” mesmo; completamente fora do tom e, pasme, não é engraçado.

Não vou mentir que a comédia funciona em alguns momentos, como quando descobrimos que o relacionamento do pai ausente terminou porque ele buscou a criança errada no colégio e foi acusado de sequestro. Por outro lado, aquilo que poderia caminhar para um lado cada vez mais absurdo ainda e envolver as peripécias do bichinho solto no navio não ocorre pela muleta que se tornam as piadas sexuais. Dessa forma, o filme logo fica cansativo, repetitivo e desinteressante (e definitivamente não recomendado para crianças) — apesar de que, a cada nova situação horrorosamente desenvolvida, o choque do quão ruim as coisas ainda podem ficar aumenta e, por isso, o filme ainda prende a atenção, mesmo que da pior forma possível.

Eu gostava bastante do desenho do Marsupilami dos anos 1990, que passava no programa Disney Club (ou Cruj). O personagem era uma espécie de Pernalonga caótico entrando em conflito com homens malvados, nos mais diferentes cenários. Neste filme, todavia, o personagem fica boa parte da duração escondido ou assistindo TV com a criança (acredito que para economizar nos efeitos especiais) — com exceção da tal cena de luta que já mencionei, e mesmo assim boa parte é usando o POV do próprio. Se o personagem já era pouco conhecido aqui pelas Américas, não vai ser com esse filme que ele será mais (ainda bem).