Os filmes anteriores de Cédric Jimenez sempre me lembraram uma espécie de proto José Padilha francês, muito ligados ao procedural policial e às engrenagens do Estado. Chien 51, porém, parece marcar uma inflexão interessante dentro de sua filmografia. Sem abandonar completamente esta tradição, Jimenez desloca seu interesse para uma imersão muito mais ambiciosa em um universo distópico, realizando um blockbuster de escala pouco comum ao cinema de gênero francês. O que impressiona logo de saída é justamente esta dimensão de produção, perceptível na construção dos cenários, nos efeitos visuais, no elenco (Gilles Lellouche, Adèle Exarchopoulos, Louis Garrel, Romain Duris, Valeria Bruni Tedeschi) e na maneira como o filme constantemente tenta ampliar o tamanho de seu mundo.

Mais do que um thriller policial futurista, Chien 51 acaba funcionando como um cruzamento entre diferentes matrizes narrativas. A luta de classes, a inteligência artificial e a vigilância estatal convivem com elementos procedurais e um melodrama intimista que aproxima o filme menos de um exercício puramente distópico e mais de algo como um encontro entre Miami Vice e Blade Runner. Em certo sentido, parece um “Miami Vice 2049”, interessado tanto na construção de um universo tecnológico quanto na dimensão afetiva de personagens tentando sobreviver dentro dele. Talvez justamente por isso acabe funcionando como um curioso contraponto a filmes como Mercy, cuja relação com a tecnologia frequentemente assume um caráter muito mais celebratório.

Provavelmente, porém, o aspecto mais interessante de Chien 51 esteja justamente na maneira como Jimenez abraça uma contradição que muitos filmes futuristas procuram evitar. Ao mesmo tempo em que a narrativa é crítica ao uso da tecnologia como instrumento de controle estatal e aprofundamento das desigualdades sociais, a direção demonstra um fascínio evidente pelas possibilidades plásticas deste mesmo universo. Drones, simulações e sistemas de vigilância deixam de funcionar apenas como temas para se tornarem elementos fundamentais da própria mise-en-scène; seja reforçando o ponto de vista de um Estado totalitário, seja intensificando o pathos dos personagens em momentos como as sequências do karaokê e da festa de fim de ano. O longa parece simultaneamente desconfiar e se apaixonar pelo mundo que cria.

Claro que existem fragilidades. A relação entre os protagonistas nunca desenvolve a química necessária para sustentar plenamente seu eixo melodramático, e algumas conveniências narrativas tornam determinados acontecimentos excessivamente fáceis. Ainda assim, a força da construção daquele universo e o senso de escala épica acabam compensando boa parte destes problemas. Há muito tempo eu não me sentia tão envolvido por um blockbuster futurista.

Neste sentido, Chien 51 me lembra Megalopolis, ainda que por caminhos bastante distintos. Se Coppola leva sua visão ao limite do delírio formal, Jimenez permanece muito mais conciso e controlado. Ambos, porém, compartilham o desejo de construir grandes mundos futuristas sem abrir mão de um olhar profundamente humano sobre seus personagens. Num momento em que boa parte da ficção científica contemporânea parece excessivamente padronizada, é animador encontrar dois filmes tão interessados em imaginar futuros visualmente expansivos, ainda que imperfeitos em suas soluções dramáticas.