A Tchecoslováquia surgiu como país independente em 1918, após o fim da Primeira Guerra Mundial e o subsequente colapso do Império Austro-Húngaro, reunindo os povos tchecos e eslovacos em um único Estado unificado. Apesar da construção da ideia de uma nação etnicamente centrada, o país era marcado por uma grande miscigenação. Além dos tchecos e eslovacos, ali também residiam judeus, húngaros e alemães oriundos da região dos Sudetos. Essa pluralidade étnica enriqueceu a convivência cultural, mas também gerava tensões políticas, sobretudo porque muitos grupos reivindicavam maior autonomia.
Após a quebra da bolsa de valores de Nova Iorque em 1929, as fragilidades econômicas e sociais do país vieram à tona, culminando em uma crise política que enfraqueceu a soberania do governo democrático tchecoslovaco. A união do desemprego em massa às tensões étnicas diminuiu a confiança da população no governo e elevou a suscetibilidade do país a influências externas. Em 1938, quando Adolf Hitler demandou a anexação dos Sudetos, uma parcela da população alemã da região montanhosa já considerava o Terceiro Reich como uma opção ao governo de Praga.
É nesse contexto politicamente conturbado que o longa de Juraj Herz, o horror psicológico O Cremador, se passa, narrando a crônica de Karel Kopfrkingl (Rudolf Hrušínský), o peculiar gerente de ascendência alemã de um crematório em Praga no final da década de 1930. Kopfrkingl é primeiramente retratado como um pai de família amável e um empregado comprometido, obcecado pela morte e fascinado pelo Livro Tibetano dos Mortos. Ele acredita firmemente, de maneira quase religiosa, que a cremação liberta as pessoas do sofrimento terreno. Aos poucos, ele é atraído pela ideologia nazista, influenciando suas convicções pessoais e encontrando o que ele acredita ser uma missão divina em sua obsessão pela “purificação”.
O Cremador não é um filme que aborda o Holocausto de maneira convencional, ele não retrata campos de concentração, confrontos ou massacres de grande magnitude. Ao invés disso, Juraj Herz foca sua narrativa em um ponto mais perturbador: o processo inquietante de como uma sociedade comum e um indivíduo aparentemente ordinário tornaram o massacre possível. O Holocausto não teve início com as câmaras de gás e com os fornos massivos, mas sim com um gradual processo de desumanização de certos grupos etnicos da Europa. Antes do assassinato em escala industrial, foi necessário criar uma perspectiva de mundo na qual certos grupos não fossem mais considerados totalmente humanos, e definitivamente não merecedores do direito de existir.
Com o aumento da influência do nazismo na Tchecoslováquia, as crenças espirituais de Kopfrkingl acerca de seu trabalho começam a ser avaliadas à luz da ideologia racial. O que antes era considerado um ritual de dignidade torna-se um meio de “purificação”, em que se começa a justificar moralmente a eliminação daqueles que o regime considera indesejáveis. O protagonista então passa a repetir discursos pseudocientíficos sobre raça, aceita as justificativas do nacional-socialismo e gradualmente deixa de enxergar seus semelhantes como indivíduos, reduzindo-os a obstáculos para uma sociedade supostamente mais pura.
Essas contradições do longa se ligam de maneira íntima com a obra de Hannah Arendt Eichmann em Jerusalém: Um Relato sobre a Banalidade do Mal. Nela, Arendt relata suas reflexões sobre o julgamento de Adolf Eichmann, oficial nazista da SS e um dos principais coordenadores da chamada Solução Final, o plano arquitetado do partido nazista para o extermínio sistemático e industrial da população judia do continente europeu. Antes de presenciar o julgamento, Arendt imaginava que encontraria um dos maiores monstros da história moderna, alguém impulsionado por um ódio extraordinário ou por uma maldade incomum. Contudo, a imagem que encontrou era bem diferente. Eichmann se mostrava como um indivíduo comum, com uma postura burocrática, sem a capacidade de refletir profundamente sobre suas próprias ações. Durante os interrogatórios, afirmava constantemente que apenas seguia as ordens superiores e obedecia às leis do Estado nazista. Sua linguagem era repleta de clichês administrativos e termos técnicos, demonstrando uma falta de habilidade para refletir criticamente sobre as implicações morais de suas atitudes.
O mal, nesse contexto, não necessariamente precisaria ser perpetrado por indivíduos monstruosos; podendo ser praticado por pessoas comuns que abandonam sua habilidade de discernimento moral e começam a agir de forma mecânica dentro de uma estrutura burocrática. Arendt não pretendia afirmar que os crimes de Eichmann eram banais ou pouco graves. Ao contrário, que era banal, neste caso, era a figura do criminoso: um funcionário aparentemente comum, sem características extraordinárias, cuja incapacidade de refletir sobre o significado de suas ações permitiu sua participação em um sistema genocida. A banalidade do mal refere-se, portanto, à normalidade de quem o pratica, e não à insignificância do mal em si.
Eichmann, na perspectiva de Arendt, via seu trabalho como uma função administrativa, na qual o cumprimento de metas era, para ele, uma tarefa técnica sem qualquer responsabilidade moral. A fragmentação das funções no aparelho estatal levava cada pessoa a enxergar-se apenas como uma pequena parte da engrenagem, reduzindo a sensação de culpa. Arendt sustenta que os regimes totalitários aproveitam exatamente essa divisão burocrática do trabalho, possibilitando que milhares de indivíduos participem de crimes enormes sem se considerarem culpados por isso.
De maneira semelhante a Eichmann, Kopfrkingl não é retratado como uma pessoa extraordinariamente cruel, mas como um homem ordinário que, gradualmente, ajusta sua consciência às demandas de uma ideologia autoritária. Ele converte sua profissão em um meio de morte, sem abrir mão da crença de que está executando um trabalho moralmente justo. Em ambos os casos, o horror não se origina apenas da violência explícita, e sim da facilidade com que pessoas aparentemente comuns podem abrir mão do pensamento crítico, trocar o julgamento moral pela obediência e contribuir para a criação de uma máquina de destruição em massa.
O crematório, que deveria ser um local para proporcionar um tratamento digno aos mortos, transformou-se em um ícone da racionalização da morte impulsionada pelo Estado totalitário. Kopfrkingl conduz seu trabalho com eficácia e profissionalismo, sem se dar conta — ou negando-se a reconhecer — que essas mesmas características podem ser utilizadas como engrenagens na máquina genocida do regime nazista.
É simbólico como que O Cremador quase não retrata o Holocausto de maneira direta. Não existem cenas em campos de concentração nem representações explícitas de matança étnica. Essa falta é uma opção estética e política, na qual Herz foca sua narrativa no período que antecede o genocídio, quando as escolhas pessoais ainda pareciam triviais e rotineiras. O espectador, ciente do desfecho histórico, entende que cada concessão moral e cada justificativa ideológica são etapas de um processo que resultará na perda de milhões de vidas. É nesse lugar em que o terror do longa reside, na certeza da tragédia, e na possibilidade do comum em compactuar de maneira arbitrária com ela.