Desde Beau Is Afraid (2023), Ari Aster parece modular seu cinema como uma montanha-russa de acontecimentos sucessivos em escalonamento contínuo, mas se lá o ressentimento freudiano convertido em neurose psicológica era o carrinho temático desta viagem, Eddington transforma o próprio zeitgeist pandêmico norte-americano num amálgama caótico de MAGA (Make America Great Again), presença digital, conspiracionismo de internet, BLM (Black Lives Matter), inteligência artificial e paranoia coletiva, como se o diretor tentasse condensar toda uma experiência histórica simultaneamente dentro de uma única pequena cidade dos Estados Unidos. E talvez o mais curioso seja justamente como o filme funciona melhor não quando tenta organizar intelectualmente esse período, mas quando aceita sua própria implosão interna; Eddington parece menos interessado em formular uma tese lógica sobre aqueles anos do que em capturar sensorialmente o bombardeio contínuo de estímulos contraditórios, discursos, medos, algoritmos e ressentimentos que transformaram aquele momento histórico numa experiência de simultaneidade enlouquecedora.

Por isso a cidade de Eddington funciona quase como um estudo acelerado de um país inteiro colapsando em tempo real dentro de um mesmo espaço geográfico. Tudo acontece ao mesmo tempo, todas as tensões sociais parecem coexistir simultaneamente e o filme constantemente opera nesta lógica de curto-circuito, em que uma cena já atropela a outra antes mesmo de qualquer elaboração dramática ou política mais sólida conseguir emergir. Quando Aster se propõe a fazer este cinema permanentemente em movimento, o sensorialismo de primeira camada inevitavelmente acaba se sobrepondo a qualquer comentário mais profundo sobre os temas que atravessa, mas em Eddington isso se torna contraditoriamente uma qualidade, porque aqueles anos também foram vividos assim: como uma sucessão incoerente, hiperacelerada e frequentemente incompreensível de estímulos emocionais, políticos e digitais.

E talvez o que os dois últimos filmes do diretor deixem mais claro é como Aster parece preso a narrar o mundo sempre pelo ponto de vista do neurótico, do ressentido e do ridicularizado. Existe algo quase viciado nessa escolha recorrente, porque ao mesmo tempo em que ela funciona como ferramenta eficiente para contaminar o olhar do espectador e transformar o mundo numa experiência paranoica subjetiva, também serve como mecanismo de não enfrentamento do próprio mundo exterior — como se o diretor estivesse permanentemente alienado dentro desta perspectiva personalista, incapaz de se dissociar completamente de si mesma para alcançar outros níveis de observação social ou política. Em Beau Is Afraid isso frequentemente reduzia o filme a uma espécie de psicanálise de primeiro semestre de faculdade transformada em espetáculo histérico, enquanto aqui ao menos existe uma tentativa mais ampla de capturar tensões coletivas para além da própria interioridade neurótica do protagonista.

Provavelmente é por isso que Eddington acabe funcionando melhor justamente em suas imperfeições e contradições. Existe algo fascinante em ver um diretor tentando produzir curtos-circuitos dentro de temas que normalmente exigiriam posicionamentos mais assertivos e organizados, e nesse sentido o filme realmente possui algo de Megalopolis (Coppola, 2024): um grande objeto excessivo, desorganizado e por vezes profundamente desigual, mas cuja ambição descontrolada possui mais vida do que muito cinema perfeitamente calculado. Ao mesmo tempo, também fica evidente um esforço constante para que absolutamente toda cena pareça representar algum sintoma do tempo presente, como se o filme estivesse permanentemente preocupado em montar uma checklist temática da década em vez de permitir que estas ideias surjam organicamente da dramaturgia.

Por esse motivo, os quarenta minutos iniciais me parecem os momentos mais interessantes do filme; porque ali Aster parece encontrar um caminho mais maduro pela via da sátira irônica, do desconforto social e da observação absurda daqueles comportamentos coletivos, antes que o filme mergulhe completamente em sua própria ebulição paranoica. A partir daí, Eddington assume definitivamente a forma dessa montanha-russa histérica de estímulos sucessivos, fascinante em sua energia caótica, mas também frequentemente aprisionada dentro dela.