Um fenômeno que se tornou bastante evidente hoje em dia é a quantidade de mulheres que entram no mercado do sexo e, mesmo que isso já fosse algo, de certa maneira, comum desde antes, com a era do digital e das redes sociais a exposição a esse tipo de conteúdo tem crescido exponencialmente — principalmente em plataformas de conteúdo adulto como OnlyFans, Privacy e etc. Mesmo que hajam mulheres que se insiram nesse mercado por um interesse em se exibir e ganhar dinheiro com isso, como alguns exemplos conhecidos, a maioria dos casos ocorre por razões de sobrevivência, quando não há muita alternativa de renda para pagar as contas e conseguir um sustento estável. O mais desafiador são as situações que não se limitam apenas a expor o próprio corpo, mas também a lidar com todo um moralismo social permeado de machismo e misoginia para com prostitutas e criadoras de conteúdo, sendo que muitos desses casos de precarização são feitos por falta de escolha.
É disso, especificamente, que o filme aqui trata. Kika é uma assistente social que engravida do segundo filho e, após a morte do seu parceiro, em desespero e endividada, ela passa a fazer bicos como prostituta para conseguir uma renda mais rápida, a fim de sustentar a si e sua família.
O filme, no geral, mostra bem pouco dela no trabalho sexual, e isso é uma certa recusa a uma abordagem que possa ir para um olhar fetichista da coisa. A própria diretora, Alexe Poukine, disse que o filme não é sobre prostituição, mas sim um retrato da vida de uma mulher que está querendo sobreviver — seja como assistente social, seja como garota de programa. Existem momentos em que a personagem está tentando aproveitar a vida de alguma maneira, mas é sempre impedida de viver, porque precisa comer e sustentar dois filhos.
Os pontos mais cruciais a fazem passar por uma aflição sobre o que fazer, levando-a a cogitar abortar o feto. A diretora também disse que vê muito de si mesma em Kika, colocando várias de suas experiências de precariedade — completando que muito provavelmente teria seguido uma vida parecida caso não tivesse se tornado diretora, ressaltando que aquilo é uma história de mulheres sufocadas por uma realidade que não foi feita para elas e tentando se virar com o que podem oferecer.
Houve um cuidado bem delicado em retratar as cenas mais íntimas; muito vindo de pesquisas e materiais documentais feitos com prostitutas, criadoras de conteúdo, dominatrixes, e outros profissionais do sexo. As situações mais desagradáveis que são retratadas mostram que não é um estilo de vida a ser desejado e que ela entrou nesse mundo justamente por falta de opções melhores para continuar se mantendo com estabilidade.
Ela própria não tem muita atitude com seus clientes e age meio travada e sem jeito diante das propostas de satisfazer fetiches bem esquisitos, o que pode sugerir que talvez ela esteja envergonhada de se submeter a isso — mas o filme não a mostra como alguém certa ou errada por isso. Para Kikam, o BDSM vem um pouco como sufocamento de uma realidade infeliz manifestado de uma maneira física e mais direta e, em um momento do filme, a atinge com força e ela desaba em choro; o que pode envolver sentimentos de culpa, arrependimento e frustração por estar em uma situação que ela não escolheu de bom grado.
Como um todo, é um filme bem honesto no que se propõe e cumpre aquilo que quer passar de maneira adequada — evitando qualquer visão machista e violência sádica — e guiando as situações em favor de uma narrativa que priorize a ternura e a humanidade de seus personagens. Como a diretora era conhecida por documentários e aqui é sua jornada em obras de ficção, essa reencenação da realidade é uma escolha inteligente para revelar certas verdades que os documentários não poderiam expor de maneira tão eficiente quanto a ficção.