Na minha crítica de Jejum de Amor (Hawks, 1940), comentei como a personagem de Rosalind Russell, a astuta jornalista Hildy Johnson, era um dos grandes exemplos do arquétipo feminino muito popularizado pelo cinema de Howard Hawks: a chamada “mulher hawksiana”. Mesmo que esse tipo de representação não se restrinja apenas às suas comédias — sendo Lauren Bacall a atriz que mais ficou conhecida nesse sentido, com suas performances nos suspenses de Hawks — ela foi um dos pilares na construção identitária que as comédias screwball mantiveram desde seu auge nos anos 40 até seu declínio comercial no início dos anos 50. Geralmente, essas personagens são caracterizadas por sua habilidade de rivalizar intelectualmente com os homens, dominando o ritmo das cenas e a própria relação em si; além de expressar sua sexualidade a partir de uma sensualidade latente e, por muitas vezes, até mesmo intimidante ao personagem masculino
Em Bola de Fogo (1941), Hawks concede vida a Katherine “Sugarpuss” O’Shea (Barbara Stanwyck), uma dançarina de uma boate noturna que é convidada pelo Professor Bertram Potts (Gary Cooper), um acadêmico especializado em linguística, para participar de uma pesquisa sobre gírias populares, com o intuito de reunir conhecimento para uma enciclopédia. Sugarpuss aceita a proposta, mas não por comprometimento com o trabalho, e sim para buscar refúgio da polícia, que a persegue para interrogá-la acerca de seu namorado Joe Lilac (Dana Andrews), um conhecido chefe do crime. Diferentemente dos velhos professores que vivem juntos de Potts, em um espaço intelectualizado, Sugarpuss conhece profundamente a dinâmica das ruas, das relações sociais e da linguagem popular, pois sua experiência de vida vem da vivência prática, não de uma educação normativa.
O nome “Sugarpuss” já revela bastante sobre a dimensão sensual e performática da personagem, intimamente relacionada ao show e à cultura popular. Sua chegada à casa dos professores é quase como uma explosão de energia, que transforma o ambiente acadêmico tomado por uma energia completamente masculina e assexuada em um epicentro de prazer e euforia. Sugarpuss traz desejo e desordem, sua presença tem um impacto quase carnavalesco: ela desmantela as normas sociais e altera totalmente a dinâmica da casa.
Não é à toa que o presente longa é eventualmente considerado uma releitura moderna e ácida de Branca de Neve e os Sete Anões (Disney, 1937), já que a dinâmica coletiva dos sete docentes remete comicamente aos anões da animação e do conto clássico: homens excêntricos e infantilizados, vivendo isolados do mundo em um espaço protegido e autossuficiente. Ao passo que a Branca de Neve clássica simboliza inocência e domesticidade, Sugarpuss é sensual, travessa e plenamente ciente de sua sexualidade. Hawks e Billy Wilder — em seu último trabalho como roteirista antes da estreia na direção — convertem a imagem feminina idealizada dos contos de fada em uma mulher da década de 1940.
Essa inversão é central para o humor do filme. A entrada de Sugarpuss na casa não produz harmonia doméstica imediata como no conto clássico; ela provoca caos eufórico. Em vez de cozinhar inocentemente para os “anões”, ela ensina gírias, dança de forma animada e expressa sua sedução aos professores. A obra substitui a moralidade infantil do conto por uma energia sexual e urbana típica do screwball. Todavia, apesar de ser predominantemente uma comédia do sub gênero, a produção contém elementos de noir e gangster, particularmente na figura do criminoso Joe Lilac e no ambiente de perseguição policial, sendo essa combinação de gêneros uma característica marcante de Howard Hawks.
Sugarpuss não é apresentada somente como uma femme fatale cínica, uma vez que Barbara Stanwyck confere uma grande humanidade à personagem. Há fragilidade por trás de sua atitude segura e, gradualmente, fica claro que ela também está exausta do mundo criminoso do qual pertence, e vê nos professores uma oportunidade de receber carinho genuíno e estabilidade emocional. Stanwyck constrói tudo isso por meio de uma performance altamente física e verbal, que oscila de forma rápida entre ironia, sedução, agressividade e ternura. Hawks aproveita ao máximo sua habilidade de ocupar o espaço cinematográfico: Sugarpuss raramente aparece passiva em cena; sempre movimentando o ambiente ao seu redor.
Dentro disso tudo, existe a intrigante relação entre Sugarpuss e Potts, na qual a mulher, na maior parte do tempo, ocupa a posição dominante, pois o homem, como um típico personagem de Hawks, funciona como uma personificação da ingenuidade intelectual, ao passo que ela domina as regras do mundo real. Em vários momentos da narrativa, ela atua quase como uma tutora, instruindo ele sobre a linguagem popular; ao mesmo tempo em que é uma figura de libertação emocional e sexual. Sugarpuss não é apenas objeto romântico de Potts; ela é a força que reorganiza completamente o universo intelectual dos professores.
Além disso, a personagem tem um papel simbólico no conflito entre cultura popular e erudita que o filme retrata. Como disse anteriormente, enquanto os professores simbolizam o saber institucionalizado, Sugarpuss encarna o conhecimento vivo das ruas; entendendo elementos essenciais da vida humana que os acadêmicos desconsideram. A famosa cena em que ensina gírias e dança aos professores resume isso perfeitamente. Desse modo, o corpo, a música e a linguagem popular passam a ser reconhecidos como meios válidos de conhecimento. Hawks converte Sugarpuss em uma figura modernizadora que rompe o isolamento elitista da academia.
Ela personifica a cultura popular urbana na forma da marginalização do jazz, da oralidade feminina, da sensualidade e do pulsar das ruas. Ela está familiarizada com os códigos sociais da cidade moderna, por viver imersa neles. A narrativa propõe de forma constante que a cultura popular possui um conhecimento legítimo, frequentemente ignorado ou subestimado pelo meio acadêmico.
Bola de Fogo é um dos grandes exemplos de como o cinema da Hollywood clássica era capaz de desenvolver personagens marginalizados de maneira gratificante e charmosa, especificamente na figura de uma mulher burlesca como Sugarpuss. Esse tipo de representação das figuras femininas perdeu espaço no imaginário popular após o fim da Segunda Guerra Mundial, quando o ideal da família suburbana se tornou central na cultura ocidental. Nesse contexto, a energia caótica da screwball começou a parecer incompatível com o novo imaginário social americano.
O subgênero, que predominou no cinema americano durante os anos 30 e início dos anos 40, começou a perder espaço gradualmente quando o mundo que lhe dava sustentação histórica começou a desaparecer. Na screwball, as personagens femininas principais costumam ser mais inteligentes e habilidosas socialmente que os homens, desafiando a masculinidade tradicional. Depois da guerra, Hollywood passou a valorizar representações femininas mais ligadas ao lar e romances com maior equilíbrio emocional. No momento em que a sociedade americana entrou em um período no qual o conservadorismo regia a vida social, a screwball perdeu parte de sua relevância cultural e sua energia caótica passou então a soar incompatível com o novo imaginário social americano.