O genocídio promovido pelo Estado nazista da Alemanha, principalmente contra o povo judeu, durante a Segunda Guerra Mundial é hoje comumente mais conhecido pelo nome Holocausto. Já em hebreu, foi usado o nome Shoah, que significa “catástrofe”. No país de origem foi chamado de Solução Final, em que a intenção era livrar a Europa de qualquer povo que fosse manchar a descendência ariana, começando pelos judeus, mas logo se estendendo a povos ciganos, eslavos, poloneses e também comunistas, homossexuais, testemunhas de jeová e pessoas com deficiência. Havia também a operação chamada Nacht Und Nebel, ou Noite e Neblina, que visava “desaparecer” com qualquer político, ativista — qualquer resistência contra o Partido Nazista.

Os desaparecimentos e a Solução Final visavam prender essas pessoas e levá-las para locais de trabalhos forçados em campos de concentração, muitos na própria Alemanha. Esses campos não foram inventados pelos nazistas, com muitos já colocados em funcionamento em diversos países da África, como Namíbia e África do Sul, bem como outros locais da Europa, como na Espanha de Franco. Mesmo no Brasil existiram campos de concentração para cidadãos japoneses, alemães e italianos e até hoje existem campos como Guantánamo, dos EUA. Ou seja, nada fora do comum para um momento de guerras imperialistas da primeira metade do século XX.

No entanto, logo essa “normalidade” se transformou em um dos maiores genocídios do século, quando surgiram os campos de extermínio — estes sim projetados clandestinamente para receber uma grande quantidade de prisioneiros, eficientemente matá-los e esconder as evidências. Deixando claro que a morte era comum já nos campos de concentração, onde os prisioneiros eram obrigados a trabalhar à exaustão e com o mínimo de comida e recursos. Contudo, seis campos, todos construídos na Polônia ocupada pelos nazistas, são considerados os que tinham como único propósito o extermínio: Chelmno, um dos primeiros estabelecidos; Bełżec; Majdanek, o primeiro a ser descoberto pelos soviéticos; Sobibór; Treblinka, o primeiro a utilizar os crematórios; e Auschwitz-Birkenau ou Auschwitz II, o maior e mais conhecido.

Esses locais foram o tema dos dois principais documentários sobre o holocausto, ambos criados por diretores franceses e lançados com quase 30 anos de diferença entre eles: o primeiro, Noite e Neblina , foi exibido em 1956 e concebido por Alan Resnais, que mais tarde ficaria conhecido por filmes como Hiroshima, Meu Amor (1959) e Ano Passado em Marienbad (1961). O segundo é Shoah, lançado em 1985, após 11 anos de filmagens e edição, do diretor Claude Lanzmann.

A dificuldade de abordar o tema foi estabelecida já nos primeiros anos pós guerra, pois não se sabia como apresentar o genocídio de maneira fidedigna, sem embelezamento e também comprometida com a veracidade dos fatos, que mesmo naquela época já eram contestados — tanto pela falta de imagens feitas antes da liberação, quanto pelo simples absurdo que era aceitar tal barbárie. Vemos hoje em dia que mesmo com inúmeras fotografias, filmagens e relatos já é difícil de compreender a existência do genocídio, imagine antes. A escolha pelo formato documentário é óbvia, quando a intenção é buscar a realidade, mas as abordagens de Resnais e Lanzmann são bem diferentes e talvez complementares.

Com a intenção de lembrar o aniversário de 10 anos da liberação dos campos de concentração e extermínio, o governo francês encomendou um documentário sobre o ocorrido e escalou para a empreitada o diretor Alan Resnais, que já tinha sucesso em curtas documentais, e também o poeta Jean Caryol, sobrevivente do campo de concentração de Mauthausen. O escritor havia publicado um conjunto de poemas chamado Poemas de Noite e Neblina, em 1946, como alerta contra o fascismo. E esse título, que remete à operação clandestina nazista, também foi escolhido como título do documentário.

Os dois viajaram para os campos de extermínio de Auschwitz e Majdanek para imagens contemporâneas dos locais. Também foram usadas imagens de arquivo de museus feitas durante a liberação dos campos, principalmente pelos soviéticos. O texto de Caryol foi sincronizado com as imagens pelo também documentarista Chris Marker e narrado pelo ator Michel Bouquet. A intenção final do curta documental de 32 minutos era não somente lembrar e alertar para que isso não acontecesse novamente, mas também questionar quem eram os reais responsáveis.

As imagens dos campos feitas por Resnais mostram os locais em cores, abandonados, com mato alto e ainda cercados de arame farpado. Elas trazem uma sensação de calma e paz, como se não tivessem mais a marca do genocídio praticado lá. Em contraposição, as imagens de arquivo são em preto e branco e começam na ascensão do partido nazista, as prisões em massa de judeus, a chegada nos campos e depois o que foi encontrado na liberação: pessoas vivas que eram pele e osso ao lado de pilhas e pilhas de corpos. Resnais não poupa o espectador. A narração também ressalta a participação de empresas alemãs, que usavam aqueles trabalhadores, bem como o uso dos objetos dos presos e também de cabelos, dentes e o que mais fosse possível vender.

Imagem de arquivo mostrada no documentário Noite e Neblina

A abordagem de Claude Lanzmann foi bem diferente. Ele escolheu compor o documentário apenas de relatos de pessoas envolvidas nos campos de extermínio e também nos guetos de Varsóvia. Inicialmente contratado por Israel para criar uma narrativa sobre o holocausto pelo ponto de vista dos judeus, logo foi dispensado quando a as filmagens começaram a demorar demais. No fim a produção visitou catorze países em seis anos, fazendo entrevistas em seis línguas diferentes e filmagens nos campos de Treblinka, Chelmo, Sobibor e Auschwitz. Mais cinco anos foram necessários para transformar as 350 horas de filmagens em quase 10 horas do filme final. Lanzmann faria ainda mais cinco longas com imagens e testemunhos não escolhidos pela edição final de Shoah, e toda a gravação foi documentada e está disponível para pesquisa no Museu do Holocausto de Washington.

Entre os personagens estão prisioneiros sobreviventes dos campos, oficiais do governo, pessoas que moravam nas cidades próximas e nazistas. Logo de início temos uma cena com um senhor cantando uma música bonita em um barco, não demora muito para descobrirmos que, enquanto ele era adolescente e prisioneiro em Chelmo, era obrigado a cantar músicas que os nazistas o ensinaram por ter uma voz bonita. Aí já temos o tom que vai se seguir por todas as longas horas: de lembranças terríveis, cenários silenciosos e culpa pela sobrevivência.

Poucos são os momentos encenados, como este do barco. Há destaque também para a entrevista com o homem responsável pelo trem que levava os prisioneiros para Treblinka, feita em um trem; e a entrevista com o barbeiro, prisioneiro responsável por cortar os cabelos das pessoas que iriam para a câmara de gás. A maioria das entrevistas são feitas com a pessoa sentada, contando a própria história, e pouca ou nenhuma intervenção do entrevistador. Também são notáveis as entrevistas com os nazistas, feitas com uma câmera escondida, pois não haviam sido autorizadas imagens, apenas o som. Certa vez, Lanzmann foi pego e acabou sendo internado por um mês depois de ser atacado.

A edição passeia pelos relatos, vai e volta, entremeia com imagens dos locais e narração dos entrevistados, o que cria um ritmo surpreendentemente dinâmico para um filme tão longo em duração. O grande trunfo de Shoah, que não poderia ser diferente, são os relatos em si, histórias que apenas sabemos por alto ganham rosto e voz. Entre os sobreviventes, conhecemos mais sobre o funcionamento interno dos campos, as posições de trabalho, as maneiras utilizadas para se desfazer dos corpos, a resistência e tentativas de fuga, o acesso e a hierarquia do gueto. Sobre os vizinhos dos campos, sabemos acerca do antissemitismo ainda presente nas cidades, dos grupos que auxiliaram os nazistas e dos que tentaram ajudar os prisioneiros. E os nazistas seguem o discurso de que estavam cumprindo ordens, mas contam detalhadamente (e com um certo orgulho) como era a operação nos campos.

É surreal pensar que haviam prisioneiros cuja sobrevivência aconteceu somente por trabalharem cortando cabelos, na limpeza das câmaras de gás ou recolhendo e queimando corpos, pessoas que conviviam ao lado do terror e não faziam nada por medo, bem como oficiais que mesmo sentindo nojo do cheiro de cadáver do lugar, seguiam suas tarefas mecanicamente, dia após dia. São histórias tão fascinantes quanto abomináveis, além de documentos históricos valiosíssimos, visto que em breve já não teremos mais sobreviventes para narrar essas experiências.

Ambos os documentários escolhem abordagens bem diversas para tocar no tema delicado do holocausto e são extremamente bem sucedidos em registrar a história e criarem obras audiovisuais que alertam para a questão do genocídio e da percepção das pessoas na época sobre a questão. Infelizmente são temáticas que ainda estão presentes na contemporaneidade, pois não podemos negar o holocausto, com tantas evidências de atrocidades inimagináveis, mas também não podemos fechar os olhos para outros tantos extermínios em massa que se sucederam e acontecem ativamente ainda hoje.