Muito antes do sucesso mundial dos k-dramas e das produções sul coreanas de forma geral, o filme Ditto, dirigido por Kim Jung-kwon, estreava nos cinemas do país em 2000. O filme contava a história de dois estudantes de épocas diferentes que se comunicavam por um rádio misterioso, conectando os anos de 2000 e de 1979. Naquela oportunidade, a obra foi bastante influente e premiada, deixando uma marca para a comédia romântica sul-coreana dali para frente.

Isso nos leva a 2022, quando Ditto: Conexões do Amor estreia no país asiático, um remake do longa de 2000, agora dirigido por Seo Eun-young — e que chegou no Brasil somente neste ano de 2026. Esta nova versão acompanha Kim Yong (Yeo Jing-goo), um estudante de engenharia mecânica em 1999 que se apaixona à primeira vista por Seo Han-sol (Kim Hye-yoon). Enquanto tenta fazer seu romance se concretizar, acaba entrando em contato com um aparelho de radioamador, com o qual, misteriosamente, consegue falar com Kim Mo-nee (Choi Yi-hyun), uma estudante de sociologia na mesma universidade que ele, porém no ano de 2022, e que lida com uma questão semelhante: é apaixonada por Oh Young-ji (Na In-woo), porém não sabe o que fazer para construir um relacionamento amoroso com ele.

Assim, além de atualizar a narrativa do original — já que optou por mover a cronologia de 1979/2000 para 1999/2022 —, Ditto: Conexões do Amor precisou lidar com a evolução da linguagem audiovisual sul-coreana, ou seja, equilibrar as exigências do público atual com um visual que remetesse ao fim dos anos 1990, época especialmente desafiadora de abordar, em virtude dos sentimentos de desesperança generalizada decorrente da crise financeira asiática que teve início em 1997. Felizmente, o filme harmoniza essas diferenças muito bem, sem perder a noção de que precisa trilhar um caminho próprio.

Um dos grandes méritos do longa é uma certa desconexão com a estética televisiva. Evidentemente que, por ser um melodrama que busca um público alvo afeito aos k-dramas, há uma diversidade de pontos de contato; mas Ditto: Conexões do Amor não se limita ao seu posicionamento comercial, tendo uma preocupação com a composição de cena que não é tão comum em seu nicho. A distinção entre 1999 e 2022, em vez de ser representada apenas com um filtro ou com uma escolha padronizada de imagem para dar tal impressão, é construída por uma série de sutilezas e de abordagens estéticas diferentes, visando explorar as nuances do passado, sem focar apenas no caráter nostálgico ou na celebração do analógico em comparação com a frieza digital da contemporaneidade. Essa preocupação com as sutilezas da imagem é, inclusive, o ponto alto do filme.

Ditto: Conexões do Amor

No visual, o principal aspecto que chama a atenção — tanto para a ambientação temporal (1999 e 2022) quanto para a pontuação de como os sentimentos dos personagens interagem com o mundo externo — é a iluminação. Algo que me incomoda na linguagem televisiva dos k-dramas é o uso de luz difusa: aquela iluminação artificial que deixa tudo pouco nítido, pouco colorido e com um aspecto esvoaçado e onírico, mesmo quando a cena não pede por isso (e, nessas obras, quase nunca pede); que acaba tirando a alma das cenas e as tornando excessivamente higienizadas e pouco interessantes. Todavia, em Ditto: Conexões do Amor essa não é a regra, visto que o diretor Seo Eun-young parece muito mais interessado em gerar um envolvimento emocional com a narrativa que vai além do texto frio, fazendo o espectador acompanhar emoções de amor, tristeza, insegurança, nostalgia e amadurecimento por meio de uma constante variação de enquadramentos, iluminação e ótimas escolhas de colorimetria.

Além disso, a escolha de elenco foi muito feliz. Yeo Jin-goo consegue articular muito bem a comédia mais expressiva com a melancolia da solidão, do deslocamento e da decepção — especialmente na meia hora final; enquanto a belíssima Cho Yi-hyun apresenta uma atuação leve e divertida, que gera momentos fofos tanto com Yong quanto com sua paixão platônica Young-ji, e ganha novos contornos com o aprofundamento das descobertas de fatos sobre o passado e da crescente complexidade dramática. Os coadjuvantes Kim Hye-yoon e Na In-woo também são bem competentes, assumindo personas carismáticas e encantadoras, o que adiciona à visão idealizada que os protagonistas têm sobre eles.

Nada disso funcionaria, porém, se a narrativa não fosse tão envolvente. Nos filmes e séries de romance, uma reclamação que costumo ter é acerca do ritmo: ou as coisas são tão corridas que não deixam a conexão emocional com os personagens respirar, ou a direção é tão minuciosa com sub-tramas desinteressantes que torna o romance principal enfadonho e faz o espectador questionar se a história de amor seria suficiente para segurar a duração da obra. Neste longa, porém, tudo é muito perfeitamente colocado, tendo tempo suficiente para nos apaixonarmos por Han-sol através dos olhos de Kim Yong, absorver as diferenças culturais de cada tempo, ficarmos curiosos sobre os detalhes de Kim Mo-nee e para sentir o impacto das reviravoltas, e até mesmo encaixando breves tratativas sobre o contexto econômico das duas épocas. O fato de a trama ser bastante direta e focada também ajuda muito nisso, porém não teria tanto êxito se não fosse pela articulação entre bons personagens, um elenco talentoso, atores que compreendem seus papéis, a ótima construção visual e uma trama que, apesar de tradicional, consegue ser emocionante e surpreendente. Apesar de a trilha sonora não chamar muito a atenção, ao final somos agraciados com um lindo cover de Chuu — ex-integrante do grupo Loona e hoje solista — de Confession, originalmente cantada por Park Hye-kyung, o que fecha com chave de ouro essa jornada.

Enfim, Ditto: Conexões do Amor é uma grata surpresa. Um romance que confia no seu próprio poder imagético no lugar de se contentar com a iluminação sem graça padrão dos romances televisivos e numa alternância tediosa de plano-contraplano com planos médios; buscando uma fluidez visual que acompanha a narrativa sempre em movimento. Sem dúvidas, é uma história comum e tradicional, mas é justamente por isso que a execução é tão notável: mesmo sem grandes acontecimentos, somos presenteados com um longa agradável e marcante.