Um dos estilos mais marcantes do cinema americano durante as décadas de 1930 e 1940 foi a comédia screwball, narrativas cômicas que mesclavam romance, humor verbal acelerado, situações absurdas e uma intensa dinâmica de conflito entre os gêneros. O termo “screwball” tem origem no beisebol e refere-se a um arremesso imprevisível, o que caracteriza bem a lógica caótica dessas narrativas: enredos repletos de mal-entendidos, mudanças de identidade, perseguições e confrontos verbais.

Mesmo que Howard Hawks tenha reconhecimento por trabalhos diversificadamente variados — como o faroeste Rio Vermelho e o suspense Uma aventura na Martinica — o diretor ocupa um papel fundamental na história da screwball comedy, pois elevou o gênero a um patamar de precisão formal e intensidade rítmica raramente alcançado.  Em Jejum de Amor, Hawks constrói a comédia com base na rapidez e no conflito, com seus personagens não apenas dialogando, mas também se confrontando verbalmente. Os diálogos são constantemente sobrepostos, gerando uma impressão de fluxo constante que converte a linguagem em ação. Essa estratégia quebra a tradição mais lenta do cinema clássico e aproxima suas comédias de algo quase musical, em que ritmo e timing são essenciais.

Esse embate cria o que podemos caracterizar como um erotismo intelectual, onde a atração entre eles não é expressa por contato físico, algo que o cinema clássico frequentemente limita, mas pelo prazer de enfrentar um adversário à altura. Quando Hildy rebate Walter com respostas rápidas ou desmonta suas estratégias, a cena ganha uma energia semelhante à de uma sedução. O ritmo vertiginoso dos diálogos, em que as falas frequentemente se sobrepõem, produz uma tensão que lembra um flerte agressivo: cada interrupção, cada piada e cada provocação funciona como uma forma indireta de intimidade.

Além disso, Howard Hawks apresenta um dos clássicos exemplos da chamada “mulher hawksiana” na figura de Hildy Johnson (Rosalind Russell). Refere-se a um tipo feminino bastante particular no cinema de Hawks: uma mulher que não só acompanha o homem, mas também o confronta em pé de igualdade intelectual, profissional e emocional. Antes de qualquer coisa, Hildy é caracterizada por sua competência: ela não é somente uma repórter; é a mais destacada da redação. 

Sua capacidade de investigar, redigir e interpretar os fatos supera a de quase todos os colegas, inclusive a de Walter Burns (Cary Grant) em algumas ocasiões. Hawks faz com que o interesse romântico esteja intimamente relacionado à admiração pela habilidade do outro, e é exatamente isso que mantém a conexão entre Hildy e Walter: eles se veem como iguais em inteligência e talento. Assim, a “mulher hawksiana” não é desejada por sua força, mas em razão dela.

Simultaneamente, Hildy representa uma tensão central. Encontra-se dividida entre dois mundos. Por um lado, há a promessa de uma vida doméstica estável, simbolizada por seu noivo, que lhe oferece uma vida mais tradicional, previsível e aceita socialmente. Por outro lado, há o universo caótico e empolgante do jornalismo, no qual sua identidade profissional se concretiza completamente. Essa decisão é tanto narrativa quanto simbólica: deixar a redação representaria renunciar à sua própria essência. Hawks propõe que Hildy não se encaixa no ambiente doméstico convencional, mas sim no mundo dinâmico, competitivo e verbalmente intenso do trabalho, sugerindo que Hildy não pertence ao espaço doméstico tradicional, mas sim ao mundo dinâmico, competitivo e verbalmente intenso do trabalho.

Dessa forma, o romance do filme surge da própria linguagem, o amor que compartilham se revela no prazer de debater, influenciar e prever as ações um do outro. O que aparenta ser uma competição profissional também é um tipo de intimidade intensa: falar rápido, interromper, provocar e responder se transformam em ações de aproximação. Nesse contexto, Hawks converte o diálogo em uma espécie de energia erótica — um elemento fundamental da screwball comedy — em que o desejo emerge da inteligência compartilhada e da satisfação em se confrontar com alguém capaz de acompanhar o mesmo ritmo mental.