A península coreana foi, por toda sua história, alvo de interesses externos. Seja pelas antigas dinastias chinesas, pelos mongóis, pelos russos ou pelos japoneses, à Coreia sempre foi negado o direito de existir como nação independente. O povo coreano foi eternamente condenado a construir sua identidade enquanto se defende da subjugação, seja esta violenta ou como um controle indireto, por meio do qual seus algozes, mesmo permitindo algum grau de independência, tratavam a nação como inferior, culturalmente subalterna e economicamente destinada apenas ao fornecimento de bens ao exterior — algo que a aproxima muito do Brasil, inclusive. Contudo, foi em 1910 que o capítulo mais duro dessa história se iniciou, com a anexação da Coreia ao Japão, em um processo colonizador de crueldade ímpar, tanto na história regional quanto mundial, por não se tratar apenas de uma empreitada visando a interesses materiais, e sim de um domínio existencial. O Império Japonês não queria apenas o resultado do trabalho dos coreanos, queria seus corpos e suas almas, intenção que é fruto de um senso de superioridade étnica e de um direito natural de exploração.

Foram tempos sombrios, com o pior reservado aos anos 1930 e 1940, quando os esforços bélicos dos colonizadores em outros locais tomaram uma dimensão inédita. Em 1931, a região da Manchúria, na China, foi invadida, o que deu início a uma escalada de tensões que resultou na Segunda Guerra Sino-Japonesa, iniciada em 1937. Entre 1932 e 1939, também houve uma diversidade de disputas entre a União Soviética e os nipônicos por territórios. O envolvimento bélico mais famoso do período, porém, seria a entrada do país na Segunda Guerra Mundial como aliado dos nazistas em 1941. Para a Coreia, isso significou uma necessidade de mobilização crescente, pois o Japão demandava cada vez mais esforços do país para financiar seus conflitos. Homens coreanos eram ou escravizados para realizar trabalhos civis ou alistados ao exército japonês (a maioria compulsoriamente e uma parte voluntariamente, a fim de ter alguns poucos benefícios econômicos). Milhares de mulheres coreanas, especialmente adolescentes, foram transformadas em escravas sexuais para soldados japoneses, sendo chamadas de “mulheres de conforto”. Junto disso, o Japão intensificou uma política de assimilação completa da Coreia, visando a tornar o povo coreano em uma classe inferior de japoneses, o que passava pelo apagamento completo de sua identidade, com a proibição da língua coreana em escolas e na administração, a obrigação de famílias a adotarem nomes japoneses, a destruição de bens culturais, a mudança forçada de currículos escolares e a perseguição de religiões locais. Todo esse horror só iria acabar em 1945 com o fim da Segunda Guerra Mundial e a rendição japonesa — e apenas parcialmente, pois os anos seguintes não significaram uma emancipação, e sim novos esforços de colonização —, deixando fraturas até hoje expostas no país, que viria a se dividir em Coreia do Norte e do Sul, com ambas encarando instabilidades e turbulências que ainda persistem e convivendo com um trauma coletivo em relação a essa parte da história.

É nesse contexto que se passa A Criada, filme de 2016 dirigido por Park Chan-Wook. Não é especificado o ano, porém a direção de arte sugere algum momento nos anos 1930, ou seja, no auge da repressão japonesa. Na obra, Sook-hee (Kim Tae-ri) é contratada para ser criada de Hideko (Kim Min-hee), herdeira de uma família rica japonesa. Hideko vive uma vida pacata na mansão da família, onde, após a morte de sua mãe no parto e do suicídio de sua tia, ela vive sozinha com seu tio Kouzuki (Jo Jin-woong), que exige ser chamado de Mestre. Kouzuki não é parente de sangue de Hideko, sendo um homem coreano que ficou rico auxiliando o governo japonês a anexar a Coreia, casou-se com a tia da herdeira, e agora planeja um novo casamento com a própria sobrinha para manter seu poder sobre a herança. Na casa, o Mestre exige que todos sigam os costumes e falem a língua do Japão, impõe à sobrinha uma rotina rígida de leitura e proíbe ela de deixar a propriedade. Essa situação, porém, se abala com as investidas do Conde Fujiwara (Ha Jung-woo), um amigo do Mestre, sobre Hideko e após o envolvimento desta com Sook-hee tomar rumos inesperados.

A Criada

Park Chan-wook repete aqui uma temática que marcou a sua obra mais conhecida, Oldboy, de 2003: o controle; contudo, em uma outra acepção. O longa anterior segue Oh Dae-su, um homem que acaba sendo preso em um quarto por alguém que desconhece, até ser subitamente solto após quinze anos e buscar a vingança contra seu captor. Oldboy é inspirado em um mangá publicado no Japão entre 1997 e 1998, o qual refletia o desejo de poder de um país em crise econômica, mergulhado em especulação imobiliária e dependente de forças estrangeiras. A adaptação, porém, é coreana e lançada alguns anos depois; fazendo com que mudanças substanciais fossem feitas na história, adaptando-a à realidade cronológica e geográfica. No cinema, a trama de Oh Dae-su é menos ligada à ação e mais a uma representação de caos que mexe com os afetos do povo coreano. A história da Coreia criou, afinal, essa desesperança: um país fadado a obedecer, seja pela opressão ou por uma mentira de liberdade; contexto que se traduz no fatalismo da impotência que permeia Oldboy. Não abordarei o final do longa de 2003, todavia, é essencial mencionar como este revela uma autodeterminação calculada para o protagonista; uma farsa de livre-arbítrio que revela caminhos pré-definidos por outrem.

A Criada, por outro lado, se passa em uma Coreia ainda unificada, mas também sufocada por interesses estrangeiros. A diferença está na relação dos indivíduos com o cenário, pois ao lado da posição subalterna não está mais uma impossibilidade de interferir, e sim a busca por uma saída concreta. A fantasia de poder sobre a possibilidade de agência sobre o caos, desse modo, é deixada de lado em prol de uma afirmação da vida e da humanidade como impulsos espirituais incontroláveis. Além disso, ao posicionar a perspectiva da obra a partir das mulheres, intersecciona a libertação nacional com uma afirmação da liberdade sexual e de gênero por meio da abertura de uma via epistemológica de reinterpretar signos de opressão e atribuir a eles uma semântica de autonomia. Inaugura, portanto, uma dialética emancipatória que, no lugar de abordar um sentimento de vingança em um caos vazio, visa a romper com a ordem vigente e celebrar a essência humana.

Para avançar no meu raciocínio, precisarei entrar em spoilers, então, fica aqui o aviso.

No presente longa, Park Chan-wook elege como principal ferramenta dessa emancipação radical o sexo. O ato sexual é tido como um exercício de beleza e de poesia capaz de romper com a desumanização do domínio e, por isso, as cenas desse teor são responsáveis por marcar os pontos de ruptura da narrativa. A trama é dividida em três partes, e também em três perspectivas: a primeira se dedica a Sook-hee como parte da conspiração de Fujiwara; a segunda acompanha o controle exercido pelo Mestre sobre Hideko e a sua tentativa de fuga, o que somente a leva a um novo dono de seu destino, o Conde; e a terceira celebra, de forma otimista, a libertação delas de seus algozes. O modo como essas perspectivas são alteradas vai além da mera divisão em capítulos, representando segmentos do espírito dessas duas mulheres, que se unem pelo erotismo e fazem nascer um romance tão intenso a ponto de ser inevitável.

Ter a perspectiva significa ter o poder de olhar. Em A Criada, tal poder é majoritariamente masculino — o male gaze de Laura Mulvey, conceito tão citado e tão pouco compreendido. O Conde e o Mestre ditam as ações de Sook-hee e Hideko e tomam o poder concreto sobre suas existências, seja a partir da chantagem, do dinheiro ou da coação física. Simultaneamente, porém, passam a exercer essa discricionariedade sobre a observação, controlar o que deve ou não ser visto, e manipular o prazer da imagem. Por diversas vezes, a obra mostra vários homens mais velhos que Hideko a vendo com olhos sexualmente famintos enquanto ela faz as leituras eróticas de seu tio. O Mestre, assim, compõe Hideko como uma ilustração sujeita aos seus caprichos, subalterna, eternamente vigiada, mas nunca ativa. O Conde, por sua vez, vê Sook-hee como um corpo a ser moldado, fazendo-a abandonar sua personalidade ardilosa em prol de um misto de arquétipo de cuidadora e de inocente para executar seus planos.

A Criada

Entretanto, no sexo, as duas tomam o olhar para si, em trechos que rompem o domínio e conduzem progressivamente ao final do enredo. Em seu íntimo, sem os papéis a elas atribuídos, as essências de Hideko e de Sook-hee enfim se encontram e podem existir sem amarras. O sexo em A Criada, desse modo, não se trata de um agrado masculino, e sim de uma manifestação espiritual e uma afirmação da vida. As longas e incrivelmente bem filmadas cenas entre as protagonistas representam os ápices dos capítulos; a narrativa, sempre tão ágil, muda seu ritmo para exaltar um prazer proibido tão intenso que é capaz de destruir a ordem vigente. Desde a imensa tensão sexual da cena em que Sook-hee lixa o dente de Hideko até a primeira noite das duas — que se repete de maneira alongada mais à frente —, todas elas representam um rompimento moral e narrativo. Além da alteração no ritmo, a obra utiliza uma articulação entre a proximidade da câmera, a valorização dos fluidos corporais e a acentuação dos sons de êxtase para construir uma atmosfera de excitação que toma o plano em todas as suas dimensões. Hideko e Sook-hee se tornam donas daquele momento, senhoras do olhar e, lentamente, conduzem à apropriação da própria trama. Enquanto o Mestre, com sua língua preta e seu sadismo, e o Conde, uma figura patética de fraqueza e de uso dos indivíduos como ferramentas, estão envoltos em uma imagética de morte; as protagonistas, a cada cena mais belas, sensuais e livres, em um contínuo impulso de expansão e de potência, são catalisadoras de vida e de autossuperação.

Importante ressaltar que a palavra não é negação, é autossuperação. Hideko e Sook-hee são frutos de suas circunstâncias e negar isso seria improdutivo. O poder que elas têm, e que é constantemente exercido, é de desconstruir e de ressignificar, não de destruir. A doutrina de controle do Mestre retorna em vários momentos de A Criada, mas nunca com o mesmo teor: vários atos sexuais do casal de mulheres são inspirados no que Hideko lia nos livros do tio e diversas falas são repetições recontextualizadas de frases dos dominadores. De igual modo, a engenhosidade de Sook-hee, que era conveniente ao Conde, se transforma em ponto central para a fuga final. Ao longo da trama, as protagonistas conquistam este universo para elas e se apoderam da simbologia que outrora tanto as construiu quanto as limitou, em um ato de desconstrução que traz esses signos para o campo da crítica e da mudança. Por isso, elas não precisam negar suas imposições para serem livres, basta as reconfigurar: atos que antes eram meios de controle, no caso de Hideko, e imperativos de sobrevivência, no caso de Sook-hee, se transmutam em objetos de renovação. Nada pode apagar a cultura, a identidade e a história dessas pessoas, mas elas têm o livre-arbítrio para usar esses fatores para as escravizar ou para as libertar, e elas escolhem a segunda. As bolas de metal, por exemplo, foram fixadas na memória de Hideko ainda criança, a partir da obrigação do Mestre em a fazer colocar uma na boca enquanto apanha por o desafiar; no entanto, quando ela enfim ganha agência sobre seu destino, sua opção não é lamentar o trauma, e sim usar esse mesmo objeto como fonte de prazer ao final do filme. Aquilo que antes era símbolo de opressão, de coação e de violência se torna representante de emancipação, de consensualidade e de paz.

A Criada

A essa trama de libertação feminina o contexto histórico coloca mais uma camada. Como anteriormente mencionado, o controle aqui não é somente de gênero nem apenas material, é existencial. Não é por acaso, portanto, o posicionamento dessa história na ocupação japonesa. O domínio perpetuado pelos nipônicos era justificado pela crença em uma superioridade étnica e cultural e por um imperativo de ordem, pelo qual os japoneses se viam no dever de guiar uma atrasada Coreia para o caminho do progresso. As maiores crueldades sempre são revestidas de uma justificativa bastante razoável — caso contrário, não seriam capazes de convencer tantos indivíduos a perpetra-las. A Criada vai além, portanto, de uma história de emancipação de gênero, atingindo o campo da autodeterminação existencial coletiva. Em nome da organização e do aperfeiçoamento, o Japão negou à Coreia o direito de existir plenamente. Adotando tais princípios, o Mestre, que tanto admirava os princípios japoneses, escravizou Hideko; e Fujiwara, sem princípios mas oportunista (como tantos coreanos que traíram seu povo), as conduzia como ferramentas. No entanto, o desejo de existir, a vontade de potência e a procura do belo não podem ser extintos, e sempre encontram seus rumos. Aqui, o fascínio pela ordem levou à sua desfiguração. O Mestre e o Conde terminam mortos, enquanto Hideko e Sook-hee plantam novas possibilidades.

Na cena final, o diretor não mostra o destino das protagonistas, tampouco o desenvolvimento e a conclusão do último ato sexual delas em câmera. Essa dúvida apenas reforça o caráter esperançoso da conclusão, em que, enfim, elas têm o domínio de seu próprio destino, e à sua frente estão apenas infinitas possibilidades; e suas escolhas, assim como sua esfera íntima, só a elas compete. Uma jornada tão bela não poderia ter um fim mais encantador, e o impacto dessa caminhada não seria tão sentido se Park Chan-wook não fosse capaz de construir uma obra de tamanha riqueza, sem nunca cair na pobreza da alegoria. A arquitetura colonial, a alternância dos idiomas, a caracterização dos personagens, a manipulação do ritmo, a organização não linear das informações sobre a trama, a valorização dos sons e dos fluidos para gerar excitação, a imagética como objetos de luxúria e de poder; a erótica do olhar; a construção misteriosa e intimidadora dos cenários e da representação do Mestre; tudo isso, e tantos outros aspectos que não tive a oportunidade de comentar, compõem uma experiência ímpar. A existência humana é complexa, e A Criada consegue provocar o êxtase por cada pedaço desta existência.