Be Gay, Do Crimes: Sete Filmes Sobre Gays Anarquistas e Trambiqueiras

Não se sabe ao certo quem criou o slogan “be gay, do crime” (em tradução livre, “seja gay, cometa crime”), mas ele passou a ser usado em grafites por cidades europeias e durante paradas do Orgulho, por volta da década de 2010. A frase tem origens antiautoritárias e anticapitalistas e não busca incentivar literalmente crimes, mas principalmente questionar as autoridades e ser contra a comercialização dos movimentos queer. A ideia é também lembrar que, durante a história LGBTQ+, assumir essas identidades e sexualidades era crime (e ainda é em muitos lugares); portanto, existir já era estar contra a lei.

Por isso, também é compreensível que esta manifestação tenha surgido, e até virado meme de Twitter, na década passada – durante a qual presenciamos, de perto, uma ascensão da extrema direita e de movimentos contra a comunidade LGBTQ+, especialmente pessoas trans.

Neste mês do Orgulho, indicamos filmes cujas narrativas fazem jus ao slogan (às vezes de forma mais literal), em que pessoas recorrem ao crime como sobrevivência, como resistência ou como um modo de viver intensamente de forma autêntica.

01

Um Dia de Cão

Sidney Lumet
1975

Inspirado em uma tentativa de assalto real no Brooklyn em 1972, o filme segue Sonny e seu parceiro Sal, que decidem roubar um banco sem muito planejamento. A situação sai do controle quando o local é cercado por repórteres, policiais e uma multidão curiosa. Diante do impasse, os dois mantêm os funcionários como reféns enquanto tentam negociar uma saída segura. A mídia transforma tudo em espetáculo e as verdadeiras motivações por trás do crime são reveladas. Lumet aborda temas tabus da sociedade norte-americana dos anos 1970, como a homossexualidade, a transgeneridade e os símbolos gerados pela revolta contracultural pós-Vietnã e Direitos Civis.

02

Querelle

Rainer Werner Fassbinder
1982

Os marujos do navio Le Vengeur chegam à hedonista cidade de Brest, na Bélgica. Acompanhamos especialmente um deles, Querelle, em uma jornada de autodescobertas sexuais intensas em meio a uma constante negação heteronormativa. Fassbinder compõe seu último longa muitas vezes como um tableau vivant onírico, como se tudo estivesse em outra dimensão, reinada pelos desejos inconscientes daqueles que os reprimem. O crime, por sinal, surge justamente como metáfora para a repressão da sexualidade. Nesse contexto, o diretor cria um senso de erotismo proibido quase constante, potencializado pela relação incestuosa que parece conduzir o protagonista.

03

A Lei do Desejo

Pedro Almodóvar
1987

Seguindo o estilo visual e de narrativa que torna os filmes de Pedro Almodóvar memoráveis, este conta a história de um diretor gay de cinema, Pablo Quintero, em um namoro em declínio, que se envolve com Antonio Benítez, um jovem inexperiente obcecado por seu filme, que logo se torna obcecado, também, por Pablo. Essa obsessão o levará a mentir, perseguir e, até mesmo, matar. O desejo, a que se refere o título, é explorado em uma trama que trata de diversos tabus, através de uma mistura entre suspense, melodrama e comédia. O filme marcou a carreira de seu realizador por ter sido a primeira produção de seu estúdio independente, El Deseo.

04

Viver Até o Fim

Gregg Araki
1992

Em plena epidemia de HIV/Aids nos Estados Unidos, dois homens gays soropositivos se cruzam por acaso e embarcam em uma viagem de carro sem rumo pelo país. Luke acredita que, por ter uma “sentença de morte”, ele é livre para fazer o que quiser, o que inclui roubar e matar, enquanto Jon ainda está lidando com as emoções da descoberta da doença, mas se deixa envolver pela vivacidade de Luke. O filme traz a discussão sobre como o Estado tratava a “praga homossexual’ na época a partir da raiva e abandono dessas pessoas, bem como traz alento quando os dois desenvolvem uma paixão avassaladora. O longa é representante do movimento conhecido como New Queer Cinema.

05

Madame Satã

Karim Aïnouz
2002

Baseado na vida de João Francisco dos Santos, ou Madame Satã, o filme conta como ele se tornou um artista performático, transformista, capoeirista, pai adotivo de várias crianças e figura conhecida na Lapa boêmia da primeira metade do século XX. Pobre, negro e homossexual assumido, ele era considerado impulsivo, sempre envolvido em brigas, e acabou preso por consequência disso. Lázaro Ramos é uma presença imponente no papel-título, em um filme que trata o protagonista como uma pessoa sensível, mas que, com muito orgulho de quem era, não deixava de se impor quando necessário.

06

A Criada

Park Chan-wook
2016

Baseado em um livro de Sarah Waters (escritora escocesa famosa por trazer protagonistas lésbicas na Era Vitoriana), o filme conta a história da ladra Sook-hee, contratada para servir como criada da rica herdeira Lady Hideko, a fim de convencê-la a se casar com o vigarista que pretende roubá-la. Park Chan-wook traz a trama para o período em que o Japão ocupava a Coreia do Sul, assim colocando tradições japonesas em uma posição de fetiche e opressão. A relação entre as duas mulheres floresce sob a atmosfera de suspense que permeia o filme.

07

O Amor Sangra

Rose Glass
2024

Em 1989, numa cidadezinha dos EUA, a fisiculturista Jackie se envolve com a gerente de uma academia de ginástica, Lou, que lhe oferece anabolizantes e um lugar onde morar. Tudo se complica quando Jackie se vê em meio às conturbações da família de Lou. Segundo longa-metragem da diretora Rose Glass, o filme é uma celebração da força física do corpo feminino e da revolta da mulher em um meio patriarcal; através da mistura de tropos de filmes de gângster e noir com Realismo Mágico, tudo sob as luzes neon dos anos 1980. Uma viagem muitas vezes alucinógena sobre o amor bandido em seu estado mais belo e violento, em igual medida.

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