Faca na Caveira: O Slasher É Imortal Como Seus Assassinos

Poucos anos antes, com a queda da censura do Código Hays, o cinema de terror estadunidense começou a expandir para muito além dos filmes de monstros que já estavam ficando repetitivos. Junto com o horror sobrenatural, que abordava temas satânicos controversos, o slasher começou a surgir nos anos 1970 como um herdeiro direto dos gialli italianos (temos lista na Revista sobre eles) e do cinema exploitation independente dos anos 1960.

Explorando bastante a violência gráfica e o erotismo mais explícito que eram barrados anteriormente, o subgênero começou a se formar aos poucos, a partir de filmes como O Massacre da Serra Elétrica (Hooper, 1974) e Noite do Terror (Clark, 1974), sendo consolidado como aquelas obras em que um grupo de jovens é caçado por um assassino, geralmente mascarado, que usa uma arma branca para dilacerar suas vítimas.

Com Halloween (Carpenter, 1978), foi estabelecida uma fórmula que gerou inúmeros exemplares até hoje. Comentando, nas entrelinhas, sobre temas como o conservadorismo americano e a liberdade sexual das mulheres, os slashers que selecionamos para a lista são o mostruário perfeito para a compreensão da tendência.

01

Noite do Terror

Bob Clark
1974

Um grupo de jovens mulheres de uma irmandade universitária recebe constantemente ligações de um pervertido sexual, que as assedia sempre que atendem. Enquanto lidam com problemas comuns no campus, elas mal sabem que o homem misterioso está vivendo no sótão da casa em que vivem. Famoso por suas comédias posteriores, Bob Clark praticamente inaugura o slasher como o conhecemos, mas ainda com muitas características dos gialli italianos, especialmente na encenação das mortes. As personagens femininas, bem mais modernas e independentes, frutos da contracultura da época, são encaradas como ameaça pelos homens que ainda as tomam como submissas.

02

Assassino Invisível

Charles B. Pierce
1976

Fortemente inspirado nos assassinatos reais ocorridos em 1946, na cidade de Texarkana, EUA, o longa narra a caçada das forças policiais em busca do serial killer conhecido como Phantom Killer, um maníaco que ataca jovens casais em lugares isolados vestindo um assustador gorro branco. Apesar do tema sombrio, o filme apresenta momentos de humor inusitados, em especial a partir de um policial atrapalhado interpretado pelo próprio diretor Charles B. Pierce. Além disso, mistura elementos documentais e dramatizações ficcionais, transformando a história dos crimes em uma espécie de lenda urbana local.

03

O Massacre da Festa do Pijama

Amy Holden Jones
1982

Não era tão comum ver mulheres conduzindo slashers, mas Amy Holden Jones abre uma trilogia inteiramente comandada por elas. A jovem Trish aproveita a viagem de seus pais e convida algumas amigas do Ensino Médio para uma festa do pijama só para meninas, justamente quando um perigoso assassino escapa da prisão. O filme escancara todas as convenções do slasher oitentista para subvertê-las ou expandi-las simbolicamente. Usando uma broca fálica, o assassino da vez é encenado como um predador sexual em busca de mulheres vulneráveis para saciar seus desejos perversos, enquanto as vítimas surgem muito mais capazes e corajosas do que se esperaria desse tipo de obra.

04

O Exterminador do Futuro

James Cameron
1984

Em um futuro pós-apocalíptico no qual as máquinas dominaram o mundo, estas enviam um ciborgue assassino de volta a 1984 para matar Sarah Connor, cujo filho ainda não nascido está destinado a liderar insurgentes contra a hegemonia mecânica do século XXI. Enquanto isso, o movimento de resistência humana envia um guerreiro solitário para protegê-la. Pode parecer estranho considerar O Exterminador do Futuro um slasher, mas um olhar mais atento revela diversos signos do subgênero: um assassino implacável, praticamente imortal, que busca sua final girl enquanto mata brutalmente qualquer um que fica em seu caminho.

05

Por Trás da Máscara: O Surgimento de Leslie Vernon

Scott Glosserman
2006

Em um mundo onde Michael Myers, Jason Voorhees e Freddy Krueger existiram de verdade como grandes serial killers, acompanhamos uma equipe de filmagem que vai documentar a rotina de Leslie Vernon, que sonha em superar seus ídolos. Glosserman trabalha com referências e convenções diretas do cinema slasher, incluindo a figura do psiquiatra que acompanha o assassino desde a infância e, assim como em Halloween (Carpenter, 1978), assume uma figura antagônica a ele. Marca muito pela ironia e pela autoconsciência e, no fim, torna-se um slasher padrão, mas usando bem dos cenários e da consciência do assassino sobre os espaços e suas vítimas.

06

A Casa do Terror

Bryan Woods & Scott Beck
2019

Em um período em que o terror é mais usado como meio para atingir o trauma dos personagens, a dupla Bryan Woods e Scott Beck consegue o oposto com um slasher que usa do trauma de sua protagonista para ressignificar o terror. No Halloween, um grupo de jovens decide visitar uma atração macabra, que consiste em uma casa cheia de “níveis” e populada por figuras mascaradas misteriosas, empreitada essa que logo se revela mortal. Os diretores conduzem muito bem essa gincana brutal com uma excelente abordagem dos espaços da casa e com paciência para nos colocar nessa descoberta gradual de algo está muito errado ali.

07

Heart Eyes

Josh Ruben
2025

Um assassino em série aterroriza Seattle e, com corações no lugar dos olhos, ataca apenas casais no Dia dos Namorados. Ao sair em um jantar de negócios, Ally e Jay são confundidos como um casal e se tornam alvo do perigoso caçador. O filme de Josh Ruben transita entre gêneros com uma fluidez natural, como se não houvesse fronteiras fixas entre eles. A comédia romântica e o terror slasher se entrelaçam num caldo onde o amor é a base e a breguice, a proteína. É uma obra que não aspira ser maior do que sua própria natureza; ao contrário, abraça com orgulho sua condição de terror B divertido, consciente de seus exageros e de sua vocação para o gore.

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