Zumbis e Infectados: Quando o Inferno Está Cheio, os Mortos Caminham na Terra!
Os primeiros filmes de zumbi propriamente ditos começaram a surgir ainda na Hollywood pré-Código Hays. Filmes como Zumbi Branco (Halperin, 1932) e A Morta-Viva (Tourneur, 1943) já apresentavam esse conceito do corpo revivido com o cérebro morto a partir do folclore haitiano, especialmente das práticas vodu. Porém, esses filmes acabavam caindo em uma visão caricata e até racista dessa religião de origem africana.
Já o zumbi moderno expandiu o conceito para outros horizontes. Com A Noite dos Mortos-Vivos (1968) e Despertar dos Mortos (1978), George A. Romero passou a usar os zumbis como uma praga que dizimava a espécie humana internamente, em uma metáfora para escancarar nossas tendências auto-destrutivas durante a Guerra Fria. O zumbi tornava-se uma criatura de cunho político e até ecológico, surgindo então os infectados, geralmente provocados por armas biológicas e produtos químicos criados pela própria Humanidade.
Com os videogames e o universo de The Walking Dead, o subgênero explodiu ainda mais no século XXI, tornando-se facilmente uma das maiores tendências do cinema contemporâneo junto com os super-heróis. A seguir, separamos sete filmes que abordam a temática sob diferentes olhares.

As Uvas da Morte
Duas amigas estão viajando de trem rumo a uma vinícola, onde pretendem encontrar seus companheiros. Um estranho passageiro embarca, infectado, no início de uma terrível transformação. Élizabeth consegue escapar, mas ao seguir sozinha, descobre que a região inteira foi tomada pelas criaturas. Um filme de zumbi um tanto quanto fora do convencional. Aqui, as criaturas, mesmo depois de totalmente transformadas, mantêm uma sombra de consciência; elas pensam, se organizam e até conversam com as vítimas. No entanto, não é mais a mente humana, mas uma versão corrompida dela. Uma inteligência reduzida a um instinto único e absoluto: matar.

Zumbi 2: A Volta dos Mortos
Em uma ilha caribenha, o pesquisador David Menard tenta compreender a origem dos zumbis que assolam o lugar. Paralelamente, o desaparecimento de um marinheiro leva sua filha Anne e o repórter Peter até a ilha, em busca de respostas. Lucio Fulci constrói um contraste entre a utopia tropical e o horror da decomposição. A paisagem paradisíaca colide com o grotesco das criaturas, com sangue e vísceras que se misturam à areia e às flores. Há algo de simbiótico nessa justaposição: natureza e morte coexistem, como se a infecção fosse apenas mais uma forma de vida. Como a cereja do bolo, há até uma cena de um zumbi saindo na porrada com um tubarão em pleno oceano!

Dia dos Mortos
Passados sete anos depois de Despertar dos Mortos (1978), o terceiro capítulo da trilogia zumbi de Romero já coloca o espectador em um EUA devastado pelo apocalipse, onde os mortos caminham pelas ruas em plena luz do dia e os humanos são obrigados a lidar com suas diferenças em bunkers militares subterrâneos. Aqui, o diretor dá mais um passo em sua grande sátira sociopolítica em relação às ações humanas que provocam sua própria destruição. Em compensação, é um filme muito mais otimista e esperançoso do que seus antecessores, apesar de todo o caos instaurado. Romero sobrevive à noite, para despertar e aproveitar o novo dia. Lindíssimo!

A Volta dos Mortos Vivos
Em um armazém de suprimentos médicos, dois funcionários atrapalhados deixam vazar um perigoso gás tóxico militar conhecido como Trioxin, gerando uma chuva contaminada que revive os cadáveres de um cemitério próximo, onde um grupo de jovens rebeldes se reúne para farrear. Mais conhecido pelos seus trabalhos como roteirista, O’Bannon conduz uma das primeiras sátiras ao subgênero de zumbis, quase uma paródia mergulhada no cinema trash. Tudo aqui é escrachado, colorido, cafona, cheio de nojeira lúdica e erotismo cara de pau. Os zumbis falantes, com olhos expressivos, e o striptease no cemitério são elementos emblemáticos desse longa.

Fome Animal
Após ser mordida por uma estranha criatura híbrida de rato e macaco, a mãe de Lionel se transforma em um zumbi grotesco — e o caos começa a se espalhar pela cidade. Tentando conter a situação sem precisar matar a própria mãe, Lionel se vê cercado por uma espiral de corpos mutilados, vísceras e humor mórbido. Fome Animal é pura catarse gore: um desfile de membros decepados e sangue jorrando em ritmo de comédia. A meta parece ser mutilar corpos da maneira mais criativa possível. A matança se transforma em espetáculo lúdico, uma brincadeira macabra onde o absurdo reina. No fim, o compromisso é simples e certeiro: divertir através do exagero.

Extermínio
Hoje, estamos acostumados com histórias de zumbis/infectados consistentes em um protagonista indo em uma road trip e tendo que lidar não só com os monstros como com os sobreviventes no caminho. Se isso é um clichê, muito se deve a Extermínio, o qual aborda Jim, interpretado por um jovem Cillian Murphy, após ele acordar de um coma 28 dias depois do surto de um vírus contagioso que causa um apocalipse zumbi. Este longa, dirigido por Danny Boyle e escrito por um então desconhecido Alex Garland, mudou completamente os filmes acerca do tema, tratando-o a partir de um aspecto semi-documental e intencionalmente amador incrível.

Seoul Station
Em 2016, Yeon Sang-ho pegou o mundo de surpresa ao apresentar Invasão Zumbi, uma das melhores obras sobre a temática fora do núcleo norte-americano. Ainda no mesmo ano, Yeon dirigiu uma prequel animada. Aqui, acompanhamos um grupo de sobreviventes — a maioria vinda de camadas marginalizadas da sociedade — lidando com o início da infecção. Apesar de ser mais simples do que seu par em live-action, é interessante como a animação aborda esse apocalipse sob a ótica de pessoas que já estavam abandonadas à própria sorte. Na obra, a cidade é decadente mesmo sem os zumbis, que servem como meio de escancarar o sofrimento desses indivíduos.