Há algo profundamente comovente para quem cresceu acompanhando o jovem Jackie Chan cômico dos anos 80 e 90 observar agora, aos 72 anos, este mesmo corpo, em sua matéria viva, ainda se entregando física e dramaticamente desta maneira dentro de um épico policial dirigido por Larry Yang sobre pais tentando proteger seus filhos em um mundo tomado pela impulsividade juvenil, pela inteligência artificial e pela automatização das relações humanas. E talvez seja justamente essa dimensão geracional que dê peso emocional a The Shadow’s Edge, porque por trás de toda a trama de espionagem, infiltrações e perseguições existe um filme constantemente preocupado com a transmissão de experiência entre gerações, com velhas formas de agir e observar o mundo tentando sobreviver diante de uma realidade cada vez mais acelerada.

O mais interessante é que o filme entende perfeitamente que espionagem, infiltração e vigilância são também formas de atuação. Todos os personagens estão constantemente performando versões falsas de si mesmos, mas é justamente dentro destas encenações que surgem momentos genuínos de humanidade, como se ao se disfarçarem surgissem pequenas rachaduras que permitissem revelar quem realmente aquelas pessoas são. Por isso talvez a cena mais bonita do filme esteja justamente longe das explosões, facadas e tiros, naquela longa sequência de jantar farsesco em que os personagens, interpretando papéis sociais uns para os outros, acabam lentamente revelando seus verdadeiros ideais e afetos. Existe uma maturidade muito bonita na maneira como o filme desacelera para permitir que pequenos olhares, silêncios e deslocamentos corporais tenham tanto peso dramático quanto as grandes set pieces.

E um dos grandes méritos da direção de Yang é justamente conseguir equilibrar escalas de diferentes tipos de grandeza. O filme funciona simultaneamente como drama íntimo, suspense policial paranoico, blockbuster tecnológico e melodrama familiar, havendo um fascínio muito evidente da mise-en-scène por esta dicotomia entre um mundo hiper tecnológico tomado por drones, inteligência artificial, sistemas de vigilância e jovens impulsivos performando acrobacias quase suicidas, enquanto as figuras mais velhas operam dentro de outra lógica, mais ligada à paciência, observação, leitura espacial e experiência acumulada. Assim, o filme parece constantemente colocar em confronto a velocidade histérica contemporânea com velhas formas analógicas de sobrevivência.

Neste sentido, The Shadow’s Edge encontra uma sinergia muito interessante entre o tech movie contemporâneo e o surveillance movie paranoico, como se o cinema estivesse tentando imaginar um futuro completamente digitalizado mas ao mesmo tempo profundamente nostálgico de uma presença humana que ainda consiga resistir dentro deste excesso de dados e imagens. E talvez por isso as cenas de ação funcionem tão bem, porque nunca são apenas exercícios de velocidade ou destruição, mas sempre cenas sobre o peso de personagens tentando sobreviver ao desgaste do tempo, do trauma e da própria idade para transmitirem suas experiências à próxima geração.

Até por isso é impossível não sair emocionalmente afetado pelas cenas de making of no encerramento do filme. Depois de duas horas e vinte de explosões, perseguições e violência coreografada, o filme termina lembrando algo profundamente humano e quase antiquado sobre o próprio cinema de ação: pessoas reais ainda estão colocando seus corpos em risco, se machucando, ensaiando e se sacrificando fisicamente para produzir espetáculo. Existe algo quase crepuscular e ao mesmo tempo caloroso em ver Jackie Chan ainda fazendo isso aos 72 anos, principalmente para quem cresceu vendo aquele corpo jovem e elástico transformar a própria dor em comédia física, como se o próprio filme soubesse que está registrando um tipo de entrega corporal do cinema que talvez esteja lentamente desaparecendo.