Abaixo ao Fascismo!: Manifestos Contra o Fascismo no Cinema
A ideologia fascista surgiu na primeira metade do século XX, sendo ela uma reação às mudanças sociais, econômicas e políticas que ocorreram na Europa após a Primeira Guerra Mundial. Ela se desenvolveu em um contexto de crise econômica, instabilidade política, insatisfação social e medo do avanço de ideologias como o socialismo e o declínio do liberalismo econômico. Esse movimento autoritário teve maior expressão na Itália e, posteriormente, em outros países.
Durante o auge desses governos e por anos após seus términos, o fascismo foi alvo de fortes críticas por parte de diversos artistas; Pablo Picasso com seu quadro Guernica, Phillip K. Dick com sua obra literária O Homem do Castelo Alto, e também outras diversas obras de arte que expressam seu descontentamentos com os ideais fascistas.
Hoje, influenciada pelas manifestações feitas por Elon Musk e outros bilionários durante a posse do atual presidente dos EUA Donald Trump, a Plano Marginal indica sete filmes para manter esse imaginário antifascista na atualidade. Filmes que transmitem críticas profundas, violentas e dramáticas durante todos os episódios da história que o Fascismo manchou com sua política violenta e de superioridade racial.

Roma, Cidade Aberta
Um marco do neorrealismo italiano e um dos filmes mais influentes da história do cinema, Roma, Cidade Aberta acompanha o líder da resistência italiana Giorgio Manfredi, durante a ocupação nazista do norte da Itália em 1944, sendo perseguidos pela Gestapo (a polícia secreta do partido nazista) dentro da Roma ocupada pelos alemães, durante suas tentativas de escapar da cidade com a ajuda de outros membros da resistência. Rossellini utilizou locais reais em vez de estúdios de filmagem, atores profissionais e não profissionais, e cenários devastados pela guerra para retratar a realidade de forma mais próxima, artifícios artísticos clássicos do movimento.

O Exército das Sombras
Baseado no romance homônimo de Joseph Kessel e em experiências próprias do diretor Jean-Pierre Melville como membro da resistência, o longa segue o engenheiro elétrico Philippe Gerbier, um dos líderes da resistência francesa contra a ocupação nazista da França em 1942, sendo traído por um informante e preso pela Gestapo, ele consegue fugir e voltar ao seu ofício como líder, travando uma guerra silenciosa contra os nazistas na cidade ocupada de Marseille. O filme mistura elementos de drama, suspense e tragédia, oferecendo uma visão realista sobre os sacrifícios e dilemas morais enfrentados pelos membros da Resistência, abordado essa luta sem nenhum tom de romantismo, mas sim de uma maneira sombria e melancólica

Salò ou os 120 Dias de Sodoma
O último filme de Pasolini e talvez seu longa mais polêmico, Salò ou Os 120 Dias de Sodoma é uma releitura contemporânea e violenta da obra do Marquês de Sade, onde 4 libertários burgueses e fascistas reúnem 18 jovens em uma mansão isolada no interior da Itália e os submetem a 120 dias de torturas, violência sexual e abusos físicos e psicológicos. Pasolini, famoso pelo seu estilo provocador e ácido, e também por suas críticas à sociedade, ambienta o filme na República de Salò, um estado-fantoche fascista estabelecido no norte da Itália durante a ocupação nazista, servindo como uma metáfora para o totalitarismo, a degradação moral e a violência institucionalizada do Fascismo. O longa transita entre o horror psicológico, o erotismo sádico e a alegoria política, sendo uma crítica feroz à opressão, à corrupção do poder e à desumanização do ser humano pela ideologia fascista.

O Ovo da Serpente
Após o suicídio de seu irmão, o trapezista Abel Rosenberg (David Carradine) se encontra com sua cunhada, Manuela (Liv Ullman) para tentarem sobreviver à recessão econômica do país juntos. Berlin, 1923; época de ascensão do nazismo e do fascismo na Alemanha. A partir desse cenário, Bergman arquiteta uma atmosfera completamente opressora, com cantos escuros e planos sombrios, que parece estar sempre aprisionando os personagens. Soa até como um filme de terror, de tão forte que a presença dessa atmosfera é, e o tamanho do medo que ela imbuí. Um filme intimista — ao focar nas crises pessoais dos protagonistas — ao mesmo tempo em que trabalha com uma escala macro de contexto histórico.

Adeus, Meninos
Em um internato católico na França ocupada pelos nazistas, dois meninos de origens diferentes desenvolvem uma forte amizade, conectada especialmente por sua paixão literária. Quando um deles se revela judeu, tudo se ressignifica. O diretor e roteirista Louis Malle, responsável por filmes controversos em sua carreira, assume uma postura mais ortodoxa ao contar um pouco de sua própria história de infância (sim, trata-se de um filme autobiográfico). A ideia aqui não é construir uma tragédia sobre antissemitismo e holocausto, mas sim uma história de resistência ao fascismo (representada pela escola) e do sonho de fugir daquela realidade (representado pelas artes).

Tropas Estelares
A humanidade está em guerra com uma raça alienígena. Johnny Rico (Casper Van Dien) se alista nas forças armadas para impressionar sua namorada. O jovem progride em sua carreira até se tornar líder de um pelotão e participar de uma ofensiva no planeta natal das criaturas. Verhoeven glorifica a violência (de modo bem gráfico) como uma maneira de satirizar e escrachar o fascismo. Um inimigo comum serve como motivação pro imperialismo e pra agressividade política. O formalismo do filme mescla uma fotografia brega e colorida que ressalta elementos da guerra com recortes de jornais militares, que explicitam a crítica com uma boa dose de humor. Sem esquecer cenas de ação frenéticas, tensas e que dispõe de um desprezo pela vida do qual só a guerra poderia ter.

No
Por pressão internacional, Augusto Pinochet cria, em 1988, um plebiscito para o povo votar entre “Sim” ou “Não” sobre sua permanência como líder do governo chileno. Nesse contexto, o filme de Larraín foca na batalha entre as campanhas de ambos os lados, especialmente a do “Não”, liderada pelo publicitário René Saavedra, que se diz politicamente isento até perceber as consequências de seu trabalho. O diretor, também chileno, monta uma estética de filmagem documental e/ou televisiva dos anos 1980 não apenas como contextualização histórica, mas também para demonstrar como a construção audiovisual foi de suma importância para o futuro do Chile contra a ditadura sanguinária de Pinochet.