Realismo Capitalista: É Mais Fácil Imaginar o Fim do Mundo do que o Fim do Capitalismo

“Realismo capitalista” trata-se da ideia desenvolvida por Mark Fisher em seu livro de mesmo nome, segundo a qual a atmosfera ideológica neoliberal faz com que o capitalismo seja visto como a única realidade viável, tornando-se impossível imaginar uma alternativa a ele. Tal visão é resumida na frase “é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo”.

Na obra, o autor menciona uma diversidade de produções culturais ficcionais que descrevem não a imaginação de um mundo diferente, mas a exacerbação da nossa própria realidade. Dessa forma, a destruição completa e o capital não se tornam incompatíveis, sendo comum vermos distopias nas quais as corporações tomam papel central por exemplo. Em outras palavras: tudo foi destruído, menos o capitalismo.

Perceber as nuances da ideologia na produção cultural é essencial, afinal, é uma maneira de politizar o cotidiano e reabrir o debate acerca de alternativas viáveis à realidade que vivemos hoje. Por isso, hoje a Revista Plano Marginal escolheu sete filmes para refletir sobre o realismo capitalista e como ele interage com o cinema, a fim de relembrar o papel da arte na política e na ideologia.

01

Despertar dos Mortos

George A. Romero
1978

O segundo capítulo da Trilogia dos Mortos de Romero, o rei dos zumbis, mostra os EUA (e possivelmente o resto do mundo) sendo tomado pela praga que revive os mortos. Um grupo de sobreviventes se refugia em um shopping e logo se vê cercado por zumbis que querem entrar, em busca da memória afetiva de suas pregressas realidades consumistas. Dentro do estabelecimento, os protagonistas vivem seu próprio paraíso consumista, até uma gangue de motoqueiros ameaçar seu porto seguro. O mundo está morrendo, mas, até na autopreservação, a lógica consumista se mantém. Talvez um dos retratos mais óbvios da manutenção inconsciente do sistema.

02

Mad Max

George Miller
1979

A franquia Mad Max é usada por Mark Fisher como um exemplo de distopia capitalista, por apresentar a escassez de recursos e o inevitável colapso da sociedade, porém reforçando a ideia de que o capitalismo ainda é o único sistema viável em um mundo pós-apocalíptico. No primeiro filme, o mundo ainda se parece muito com o presente, mas já enfrenta a destruição sem volta do meio ambiente unido à falta de petróleo e combustível. Nesse cenário de terra devastada, Max Rockatansky é um policial desiludido que tenta manter a ordem em meio a ataques de gangues de motoqueiros no interior da Austrália

03

Filhos da Esperança

Alfonso Cuarón
2006

Num futuro próximo a humanidade perdeu a capacidade de reprodução e a pessoa mais nova do mundo, que tinha 18 anos, acabou de morrer. A sociedade já colapsou e os sobreviventes estão sob vigilância militar. É nesse cenário, porém, que ativistas descobrem uma mulher grávida e precisam levá-la escondido para um local seguro. Mark Fisher, no livro Realismo Capitalista, cita nominalmente este longa como um exemplo de uma realidade exacerbada, muito semelhante a nossa, em que não há esperança de escapatória de um futuro no capitalismo pois não há possibilidade de uma mudança radical na sociedade.

04

WALL-E

Andrew Stanton
2008

Em um mundo devastado, onde plantas não crescem mais e o que sobrou foram os resíduos da humanidade, um robôzinho solitário ainda exerce sua função de limpeza do planeta para que os humanos possam retornar. Enquanto isso, a humanidade vive em uma nave que reproduz de forma extrema toda a apatia, vida virtual e consumismo provenientes do capitalismo para controlar os passageiros, que já aceitaram sua condição desumana e nem procuram mais a voltar para a Terra. No entanto, uma faísca de esperança aparece quando uma robô pesquisadora encontra uma pequena planta.

05

Cosmópolis

David Cronenberg
2012

O jovem bilionário Eric Packer insiste que precisa ir cortar o cabelo no outro lado da cidade, em seu barbeiro favorito. Protegido constantemente por seu segurança particular e sua limusine de luxo, que também funciona de escritório, Packer vive normalmente sua vida enquanto o mundo a sua volta entra em ebulição e parece cada vez mais próximo de arrastá-lo junto. Cronenberg compõe, como de praxe, um filme esquisito. O personagem de Robert Pattinson age como uma IA na maior parte do tempo, de forma blasé e apática, e começa a parecer humano apenas quando seu império financeiro parece desabar. O desfecho inconclusivo é mais simbólico do que parece.

06

Expresso do Amanhã

Bong Joon Ho
2013

Baseado na graphic novel O Perfuraneve (1982), de Jacques Lob, Benjamin Legrand e Jean-Marc Rochette, o primeiro filme hollywoodiano de Bong fala sobre um trem que sintetiza a luta de classes em uma sociedade que beira o fascismo. As classes baixas dos vagões traseiros precários iniciam uma revolução e atravessam o Expresso, passando por diferentes facetas da sociedade, buscando encontrar Wilford, o magnata que controla o enorme veículo. Mesmo que muitas vezes esse mundo não faça tanto sentido, tudo funciona em prol da ideia de como as estruturas capitalistas, tal como baratas, podem sobreviver até à quase extinção da Humanidade.

07

Alien: Romulus

Fede Álvarez
2024

Ao entenderem que terão que trabalhar sem folga, até morrerem, em uma colônia permanentemente escura da empresa Weyland-Yutani, um grupo de jovens decidem roubar o equipamento de criogenia de uma estação espacial para aguentar a viagem de nove anos para um planeta fora do domínio da empresa. Assim como nos demais (bons) filmes da franquia, o alienígena é a ameaça mais perigosa e não a corporação, que não se preocupa em eliminar seres humanos se for necessário. Com isso a resistência é absorvida e utilizada para combater uma força externa sem apresentar perigo ao sistema, como pontua Mark Fisher.

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