Scarlett (Charlotte Kirk) é uma pequena ladra que bate carteiras na vida noturna. Certo dia, ao roubar do gangster Rob (Philip Winchester), acaba sendo flagrada e se envolve romanticamente com o rapaz. Então, a mulher é arrastada por ele para o mundo do tráfico de diamantes e assume a alcunha de Duquesa.

Curioso como, de certo modo, os problemas que o filme tem possuem raiz extradiegética. Ou seja, questões que se materializam dentro da obra, mas que tem sua origem fora do próprio filme; remanescendo lastros ao longo de todo o longa, como rastros do sangue de um homem baleado. O primórdio de todo o mal do filme de Marshall possui nacionalidade: é britânico.

Piadas à parte, meu leitor, não estou falando da culinária peculiar ou da falta de lábio superior; trato sobre outra questão proveniente da ilha que nunca faz sol: o tesão pelo Guy Ritchie. Não me entendam mal! Assim como o próximo apreciador do cinema de ação, eu também gosto de muita coisa do Ritchie. Snatch – Porcos e Diamantes (Ritchie, 2000)? Ótimo! Magnatas do Crime (Ritchie, 2019)? Talvez um dos melhores filmes do gênero feito na década passada. Quando está com vontade e abre mão do piloto automático, o ex da Madonna é bom! E isso é justamente o cerne do problema que eu quero tratar. O britânico deixou uma marca tão influente que parece que, nas três décadas seguintes, muita gente não aprendeu a fazer cinema de ação sem recorrer a ele.

Não que a rev(f)erência seja um problema diretamente, mas dentre a onda de centenas de obras efluentes de Ritchie, poucas escapam do conforto do pastiche barato. Nem todo mundo consegue ser Matthew Vaughn ou Chad Stahelski — nomes que carregam uma influência perceptível de Ritchie mas conseguem utilizar isso de modo particular para desenvolver um traço mais autoral. Infelizmente, A Duquesa Vingadora é uma das obras que ficam presas ao pastiche.

Com uma montagem veloz, diálogos expositivos, relacionamentos irônicos, e tiques com letreiros, o longa de Marshall tem tudo o que um de Ritchie tem direito; só que não aproveita isso tão bem quanto o outro cineasta em seus melhores momentos. O diretor de A Duquesa Vingadora parece se contentar apenas com imitar traços que funcionaram em outros contextos, sem realmente desenvolver algo em cima disso — nem que seja um mero comentário sobre essa reprodução.

É até um pouco triste que esse seja o caminho tomado por Marshall, pois o resultado não é ruim; apenas não brilha como poderia. Sobretudo quando temos momentos de vislumbre dos cacoetes do próprio diretor — ele lida muito bem (e de um modo diferente de Ritchie) com sangue e com uma violência mais expositiva. Ou seja, um cineasta que tem os artifícios e a capacidade de desenvolver algo próprio a partir de uma referência específica, mas parece ter medo de o fazer. É até meio estranho constatar isso ao pensar na carreira de Marshall, que já teve momentos bem autorais, como em Abismo do Medo (2005).

Como ressaltado, não chega a ser um filme ruim por isso; é mais uma constatação triste sobre o que poderia ser e nunca foi. Apesar do pastiche — e Marshall é competente como máquina de xerox na maior parte do tempo — A Duquesa Vingadora é até divertido. Seu filme trabalha em cima de uma estrutura interessante: há, no meio do caminho, uma troca de ótica e de protagonismo. Até certo ponto, o personagem de Philip Winchester ocupa os holofotes centrais do filme; após a metade da obra (ou algo próximo disso) Charlotte Kirk assume a responsa.

Se for para ser sincero, parece algo que foi feito sem querer. Desde o início, a Duquesa toma conta da narração do filme e tenta se impor como protagonista. Contudo, a decupagem do diretor, alinhada com o modo como ele conduz a encenação de seus atores dentro do quadro, insiste em roubar o protagonista para Rob. Seu personagem é expansivo, é galã, é badass — é o clássico Guy Ritchie, rs —, e o modo como a figura de Winchester se posiciona perante à câmara reforça ainda mais sua posição como principal. Talvez um personagem maior que seu próprio filme.

Entretanto, é nesse erro que Marshall acerta. Como se você fosse pedir um lanche e acabasse clicando errado no iFood e pedindo uma pizza; não é o que você queria, é ainda melhor! A dinâmica proveniente disso é provavelmente o ponto mais divertido do filme, e a troca de protagonismo e detenção do olhar que acontece lá pela metade proporciona uma certa renovada no filme. Poderíamos até argumentar que o título do filme quase estraga essa experiência — e, por tabela, é mais uma evidência de como isso foi feito sem querer.

Em suma, A Duquesa Vingadora parece sofrer do mal de galinha: é covarde. Seja lá o que aconteceu com Neil Marshall ao longo das décadas, nesse filme o diretor parece ter medo de aparecer. Em diversos momentos seu filme pede por uma mão mais firme, enquanto o cineasta corre para se esconder atrás de outros nomes. Uma obra que pede por identidade própria, mas que recebe medo de ser percebida. Como pastiche, é um bom filme de um mau momento do Guy Ritchie; como filme, é insignificante na sua própria inexistência.