Paul W. S. Anderson tem uma carreira hoje muito vinculada aos filmes que são adaptações de videogames, em especial à franquia Resident Evil. Porém isso talvez tivesse sido diferente se seu primeiro filme em Hollywood não fosse o blockbuster Mortal Kombat. O jovem diretor conseguiu o trabalho por adorar os jogos, que na época só haviam dois, e por mentir que sabia mexer com efeitos visuais (alguns acusam que ele não sabe até hoje).
A adaptação de Mortal Kombat foi idealizada por Lawrence Kasanoff, que viu o potencial dramático da narrativa do jogo e adquiriu os direitos da franquia logo após o lançamento de Mortal Kombat II, em 1993 — ele viria a ser produtor do filme de 1995 e de vários outros subsequentes, incluindo do longa de 2021. A história do primeiro filme segue principalmente a trama do jogo original, incluindo alguns elementos da sequência do videogame.
No filme de 1995, acompanhamos os três principais representantes da Terra — Liu Kang (Robin Shou), Johnny Cage (Linden Ashby) e Sonya Blade (Bridgette Wilson Sampras, na época solteira) — em um torneio de luta contra a dominação de Outworld. Cada um possui uma motivação específica, além de salvar o planeta: Liu Kang não acredita na própria missão e quer vingar a morte do irmão, Sonya está caçando o assassino de seu parceiro policial, e Johnny Cage é ator e quer boa publicidade para impulsionar a carreira. Eles tem como mentor e protetor do reino da Terra o deus da trovão, Lord Raiden (Christopher Lambert). Do lado oposto, o feiticeiro Shang Tsung (Cary-Hiroyuki Tagawa) comanda o torneio chamado de Mortal Kombat.
Partindo de um filme independente e sem experiência no cinema de ação, Paul W. S. Anderson contou com bastante ajuda. Primeiro, da equipe de dublês, liderada por Pat E. Johnson — que já havia trabalhado com Chuck Norris e Bruce Lee — nas coreografias e montagem dos embates. Depois, de Robin Shou, que também estava em seu primeiro filme hollywoodiano, mas conhecia muito bem o cinema de artes marciais de Hong Kong, colaborando assim nas coreografias e trazendo a experiência de como filmar as lutas — por sua influência também, Mortal Kombat se tornou o primeiro filme dos EUA a usar wirework (cabos para suspender e mover os atores em cenas de ação). Além disso, Bridgette Wilson e Linden Ashby também fizeram suas respectivas cenas de lutas, o que permitiu mais liberdade para a direção na hora de filmar os combates, sem ter que esconder a cara dos atores. O longa também conta com dois personagens especiais: Goro e Reptile, o primeiro um animatrônico gigante (e levemente defeituoso) e o segundo inicialmente é um personagem completamente criado por CGI, o que em 1995 era bem incomum — inclusive ator e diretor não sabiam ainda qual seria o design dele enquanto filmavam a cena em que ele aparece.
Com tantos recursos à disposição, as lutas em Mortal Kombat são bem diversas e cada uma conta uma história, como números de dança em um musical. Algumas lutas apresentam os personagens; outras mostram as habilidades especiais de cada um; também, as lutas que dão novas informações que serão importantes mais tarde; por último, as lutas decisivas. Em todas, cada combatente tem personalidade e estilo próprio bem definidos, ressaltados, inclusive, pela ambientação (quanto mais poderoso e misterioso é o personagem, mais soturno é o local). Além disso, a dinâmica do videogame também está presente no momento em que vários personagens mostram seu golpe clássico e durante o embate final, dividido em três rounds.
Para além das fantásticas cenas de combate, o longa também é muito engraçado. Seja com as frases de efeito de Shang Tsung, as piadinhas de tio do Raiden, ou as improvisações de Johnny Cage, o filme sempre mantém uma certa leveza (criticada pelos fãs chatos do jogo), apesar de ainda se levar a sério suficiente para manter a tensão e não tratar como piada momentos de drama e tristeza. Seria Mortal Kombat um protótipo de “filme Marvel”? Assim como os filmes do MCU, este também teve que ser amenizado por uma censura PG-13 (aqui algo como 12 anos), que não permite, entre outras coisas, palavrão, muito sangue e mortes humanas em cena — por isso, inclusive, que apenas mortes não-humanas são mostradas.
Vale destacar a trilha sonora sensacional, composta por uma mistura de música eletrônica com instrumentos tradicionais asiáticos, além de uma orquestra carente de instrumentos agudos, com bastante grave e percussão. George S. Clinton criou composições marcantes para cada luta e temas bem distintos para alguns personagens, que até contribuem para a ideia de “musical de ação” que o filme passa. No entanto, a música mais emblemática e icônica do filme ainda é o tema principal, composto pelo duo belga The Immortals, em que uma voz masculina grita “Mortal Kombat”, seguida por uma batida inesquecível.
É muito perceptível que toda a equipe envolvida no filme estava entrosada e fazendo o possível para que aquela empreitada desse certo. Da química dos atores, passando pelo humor, até às coreografias de ação, tudo se encaixa perfeitamente em um blockbuster camp e divertido que sobreviveu ao teste do tempo — mesmo que alguns efeitos especiais pareçam bobos hoje ou que algumas lutas não tenham o dinamismo dos embates atuais. E, além de tudo isso, ainda é uma boa adaptação, mantendo a adrenalina e a essência do jogo (mesmo que menos violento) e criando personagens completos. Os haters que me desculpem, mas, pra mim, é Flawless Victory!