Um grupo liderado pelo médico Cemal (Muhammet Uzuner) e o policial Naci (Yılmaz Erdoğan) conduz a busca por uma vítima de assassinato, após um suspeito chamado Kenan (Fırat Tanış) e seu irmão com deficiência intelectual confessarem o crime. No entanto, a busca se revela mais difícil do que o previsto, já que Kenan está confuso sobre a localização do corpo. Enquanto continuam procurando, os integrantes do grupo não conseguem evitar conversas entre si, misturando trivialidades com suas preocupações mais profundas.

Uma das primeiras cenas de Era Uma Vez na Anatólia é um plano aberto, em que os carros da polícia, com o suspeito no banco de trás, chegam a um campo onde pensam que irão encontrar o corpo da vítima. Lá, são confrontados pela frustração de notarem como o suposto assassino lembra tão pouco do local, circunstância que os levará pelo resto da noite e parte do dia, acompanhados pelo diretor Nuri Bilge Ceylan com uma paciência que vai na contramão dos suspenses tradicionais.

Isso se dá porque o longa não é um suspense, ao menos não nos moldes dos ótimos de David Fincher, por exemplo. A cada minuto, Era Uma Vez na Anatólia se distancia do crime e passa a contemplar a Turquia perdida entre os costumes antigos e o acelerado mundo moderno. Há uma cena em que, após uma agressão por parte do policial, o promotor de justiça menciona que “não é desse jeito que a Turquia vai ser aceita na União Europeia”, e isso encapsula todo o substrato temático do filme: o espírito do mundo está mudando, mas os sujeitos são os mesmos.

A contemplação dos belos planos longos dá lentamente lugar à irracionalidade, visto tanto pelos personagens quanto pelo espectador. A Turquia estática dos mitos fundadores e dos costumes antigos dá lugar a um país dinâmico, globalizado, que precisa se reinventar e se adaptar para existir no mundo. Porém, como lidar com a consciência da irracionalidade da contemporaneidade? Como lidar com um assassinato que, ainda que ocorra cotidianamente, parece quebrar com a harmonia social (mesmo que fictícia) por sua aparente falta de explicação, e até de lembrança por parte do criminoso? Ninguém ensinou aos personagens as regras da contemporaneidade, até porque não há regras.

E é essa angústia que percorre as longas 2 horas e 43 minutos da obra, em que uma diversidade de pequenos e minuciosos diálogos compõem a construção dessa cosmovisão confusa e contraditória por parte dos personagens, aliada aos planos longos e contemplativos que contrastam tanto o novo mundo com os antigos costumes quanto as demandas urgentes em um tempo que ainda corre lentamente.

Há algum tipo de resolução apenas na segunda metade, com o dia já amanhecido, e mesmo essa resposta não é exatamente satisfatória. Novos personagens aparecem e dão algum contexto para o crime, e além de ampliarem a tristeza e (novamente) a irracionalidade do ato, destacam a insuficiência das autoridades, das leis e da sociedade que emerge. Os protagonistas também sentem isso ao pouco saber como lidar corretamente com o corpo, com a investigação, com a família da vítima, com nada.

Era Uma Vez na Anatólia é um filme lento, porém isso não quer dizer que seja calmo. Pelo contrário, o ritmo cadenciado é sufocante, e dá ao longa contornos que vão além dos temas políticos, de modo a atingir a essência das contradições das relações sociais representadas, em uma constante guerra entre o antigo e o novo, e entre o tempo real e a urgência. Por isso, considero um dos melhores filmes dos anos 2010.