Faroestes Brasileiros: Bang Bang nas Terras Tupiniquins

Em março deste ano foi lançado Oeste Outra Vez, de Erico Rassi, um filme que ajudou a trazer à tona o gênero do faroeste no cinema brasileiro. O faroeste foi — e continua sendo — um gênero bastante popular no cinema desde o século XX, seja por meio da Hollywood clássica, com diretores como John Ford e Howard Hawks, ou pelo subgênero Spaghetti Western italiano, com nomes como Sergio Leone e Sergio Corbucci. O sucesso desse tipo de filme se deve, em parte, ao seu apelo como entretenimento, mas também ao fato de abordarem temas como a realidade do homem sertanejo e a história de um país, contada através da figura do cowboy — glorificando essa jornada ou desconstruindo-a.

No entanto, quando essa lógica é aplicada ao Brasil, esse tipo de cinema ganha uma nova dimensão. Estamos diante da nossa própria história sendo contada por nós mesmos, em narrativas que refletem as influências da cultura interiorana, seus hábitos, cotidiano e conflitos. Tais obras expandem os limites do gênero, criando histórias que tanto entretêm quanto discutem questões sociopolíticas específicas do Brasil — impossíveis de serem replicadas a partir da lógica estadunidense. Por isso, a Plano Marginal preparou uma lista com filmes brasileiros incríveis sobre as vivências e os conflitos do sertão, que falam de nós, de nossas terras, nossos dilemas e nossa gente.

01

O Cangaceiro

Lima Barreto
1953

Começando com um clássico da Vera Cruz, o filme narra a história de um bando de cangaceiros que saqueam um vilarejo e sequestram uma professora local, que escapa numa noite após um dos membros se apaixonar pela moça e decidir libertá-la em segredo para fugir com ela à cidade. Quando o chefe do grupo descobre a traição, parte com seus homens em perseguição para matá-los. A obra incorpora diversos elementos do cinema de John Ford, como a estrutura narrativa clássica e o tom de romance e faroeste, mas os adapta à cultura brasileira, com uma estética e identidade próprias.

02

A Morte Comanda o Cangaço

Carlos Coimbra
1960

Raimundo Vieira, após ter sua fazenda incendiada e presenciar a decapitação da própria mãe pelas mãos do bando de cangaceiros do temido capitão Silvério, reúne um grupo de homens determinados a caçar os criminosos. Movido pelo desejo de vingança, parte em busca do capitão e do coronel Nelsinho — padrinho de Silvério e mandante do massacre. O homem confronta não apenas seus inimigos, mas também os fantasmas de sua própria dor. Trata-se de uma clássica história de vingança, repleta de ação, ambientada no sertão nordestino e marcada por referências intensas ao período do cangaço.

03

A Hora e a Vez de Augusto Matraga

Roberto Santos
1965

Adaptado de um conto de João Guimarães Rosa, o filme acompanha Augusto Matraga, fazendeiro do interior de Minas Gerais, conhecido por sua natureza violenta e temperamental. Após cair numa emboscada, é brutalmente espancado e dado como morto. Resgatado por um casal humilde e religioso, inicia um processo de conversão ao cristianismo em busca de redenção. Seus conflitos internos ressurgem ao reencontrar um grupo de jagunços com os quais tivera laços no passado. A obra rompe com os moldes convencionais do gênero para explorar a luta entre brutalidade e bondade, violência e fé, culpa e perdão — intensificada pela trilha hipnótica de voz e violão de Geraldo Vandré.

04

O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro

Glauber Rocha
1969

Continuação do icônico Deus e o Diabo na Terra do Sol, o filme acompanha o ex-mercenário Antônio das Mortes, contratado para eliminar um grupo de cangaceiros liderados por Coriana. Ao chegar ao vilarejo que estavam, confronta a miséria local e entra em crise existencial: sua fama de “matador de cangaceiros” já não faz sentido. Após o choque, muda de perspectiva e se volta contra os que o contrataram, unindo-se ao povo na luta por justiça. A obra combina o faroeste revisionista com elementos brasileiros como o cordel, o sincretismo, o tropicalismo e uma estética onírica, quase delirante, de forte carga simbólica e política.

05

O Homem do Corpo Fechado

Schubert Magalhães
1972

Um grande proprietário de terras contrata um vaqueiro para ser seu capanga. No entanto, com o passar do tempo, o vaqueiro acaba se sentindo atraído pela sobrinha do patrão. Movido pelo desejo e pelo sentimento que cresce entre os dois, decide fugir com ela. Furioso com a traição, o fazendeiro inicia uma caçada implacável ao casal, determinado a capturá-los e impor sua justiça. A história, embora lembre O Cangaceiro, de Lima Barreto, não possui o mesmo charme clássico, mas ainda carrega com força os elementos de faroeste e o romantismo intenso.

06

Caingangue, A Pontaria do Diabo

Carlos Hugo Christensen
1973

Depois de ter seu pai assassinado em uma disputa por terras, um rapaz é acolhido e criado por uma tribo de indígenas caingangues, com quem aprende técnicas de sobrevivência e desenvolve um profundo vínculo com a natureza e a luta pela terra. À medida que cresce, torna-se um temido pistoleiro. Ao descobrir que o mandante da morte de seu pai é um poderoso latifundiário da região, vai atrás desse homem para se vingar. Mais do que uma simples história de vingança: um retrato cru da realidade brasileira marcada por conflitos fundiários, destruição pelo avanço do latifúndio e a luta pela sobrevivência.

07

Sertânia

Geraldo Sarno
2019

Durante um confronto armado na cidade de Sertânia, Antão, membro do bando do capitão Jesuíno, é gravemente ferido. Enquanto se arrasta pelo mato seco, moribundo, começa a delirar com situações de sua vida que antecederam esse momento. O filme traz diversas influências do Cinema Novo e apresenta, em vários momentos, abordagens claramente experimentalistas. Em certas passagens, a narrativa é deslocada para o presente, criando uma justaposição temporal que enfatiza a permanência da violência, da fome e da opressão vividas pelo povo sertanejo.

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