Embora Tron: Uma Odisseia Eletrônica (Lisberger, 1982) não ter tido sucesso comercial que a Disney esperava, surpreendentemente, em 2010, quase trinta anos depois, a empresa voltou a apostar nessa agora franquia em Tron: O Legado. Aqui, acompanhamos Sam Flynn (Garrett Hedlund), herdeiro da ENCOM e o filho de Kevin Flynn (Jeff Bridges) protagonista do primeiro filme, quando ele é absorvido pelo mundo eletrônico (chamado aqui de grid) durante a investigação do desaparecimento de seu pai. Ajudado por um programa misterioso chamado Quorra (Olivia Wilde), o protagonista tenta encontrar seu pai enquanto lida com a iminência da ascensão ao mundo real do programa fascista Clu (também interpretado por Jeff Bridges).

Por parte considerável do filme, tudo que eu falei sobre Tron: Uma Odisseia Eletrônica se aplica a O Legado também. Especialmente na primeira metade há uma celebração do longa de 1982, uma nostalgia gigantesca retratada da maneira mais tosca possível: um retorno ao fliperama, música da banda Journey e a repetição da trama do anterior. Porém, a nostalgia tem mesmo algum valor aqui? Tron: Uma Odisseia Eletrônica não é exatamente um bom filme, e sequer é lembrado para além de suas inovações tecnológicas (e até nisso é escanteado). Não é como se estivéssemos retornando ao DeLorean de De Volta Para o Futuro (Zemeckis, 1985); então toda essa devoção fica meio estúpida.

Dentro do grid as coisas não são muito melhores, narrativa e visualmente. Não que Tron: O Legado seja feio — longe disso, inclusive — mas substituiu-se Moebius por um design de produção basicamente neon, com bem menos personalidade. Junte isso a uma construção de personagens ainda pior que o antecessor, e o resultado é ridículo, e se mantém assim por boa parte do longa.

Quando a direção deixa de ser preguiçosa, notavelmente após a cena da boate do personagem de Michael Sheen, tudo melhora absurdamente. A trama toma um rumo próprio e o visual neon encontra uma voz própria, resultando em momentos realmente deslumbrantes, em que a evolução tecnológica possibilita experimentos bem interessantes.

Todavia, apesar de terminar em alta, ainda sofre muito com a falta de bons personagens e a ausência de uma noção do que fazer com eles. A imersão no visual digital não é suficiente quando a narrativa ainda depende excessivamente de um drama mal elaborado e protocolar, problemas que são herança, também, de seu antecessor de 1982. Prejudica, também, o fato de a atuação de Garrett Hedlund ser horrorosa, deixando claro que era totalmente incapaz de fazer o papel de protagonista em qualquer filme, algo que fica especialmente notável nas cenas fora do grid.

Acaba que Tron: O Legado é bem menos do que poderia ser. Melhor que seu antecessor (o que não quer dizer muita coisa), mas bem aquém de seu potencial. Gasta muito tempo repetindo o Tron de 1982, demora demais para explorar a estética do universo digital e novamente não tem um personagem cativante — porém, por algum motivo, continua investindo tempo neles. Um clipe do Daft Punk nesses moldes iria ser imensamente mais divertido, porque a trilha sonora deles é sensacional.